domingo, 2 de dezembro de 2012

Sorriso

Sorriso, boca e dente
Arreganhados.
Arranha o céu da boca.
Abre o sorriso da poetisa.
Estica o hiato.
Separa as sílabas.
Assim mesmo, ei-la:
A poesia
Nos passos da bailarina
no ar...
Conjuga esse verbo menina
Pra poesia ter seu lugar.

Brás Cubas.

Olhos

Olhos grandes
Olhos pequenos
Olhos pretos
Olhos olham
Olhos e sobrancelha
A pestana que pisca
Devaneia
O olhar
O rímel
O olhar crível
Os olhos
Os olhos que olham
O passar das horas
Os olhos do tempo
As rugas
Nos olhos
Os olhos do sono
A boca que boceje
Para esse olho nanar.

Brás Cubas.

Só a felicidade é feliz

Sorrisos nos cantos dos quartos.
Parecem as palavras de Sartre
Sorrisos pendurados nos quadros,
Nas portas dos armários.
Sorrisos na boca vermelha,
da donzela e do palhaço.
Sorrisos nos cantos dos quartos.
Sorriso aquarela.
Sorriso cinza.
Sorriso pincela.
O sorriso amarelo
É quase entre os dentes,
O sorriso do doente.
O sorriso nos cantos dos quartos.
A gargalhada eufórica
A própria euforia
Que alguém lhes diga
Sobre o sorriso nos cantos dos quartos,
E que todos saibam enfim
Que mesmo embutida nos armários
Só a felicidade é feliz.

Brás Cubas.

Pureza

A pureza d'alma
Afável e calma
A pureza d'alma
A alma encanto
A alma que canta
O corpo que balança
A pureza
A pureza é pura
Mas não é puritana
A pureza quer ser única
A pureza
No tom das túnicas
Nas cores do arco-íris
No olho e na sua íris

Brás Cubas.

Um toque

O seu olhar tocou aquela pele
A pele coberta pelo vestido
O nosso olhar tocou a rosa
E a sua vermelhidão
O roxo multidão
O nosso olhar que toca a foto
O olhar que toca a pele.

Brás Cubas.

Ciranda de palavras

Sopa de letrinhas
Para aprender uma língua
Uma é falada
A outra é a escrita
Sopa de letrinhas
Pra dançar na roda
Pra girar a jibóia
Pra gente dançar
Se enrola a palavra
Na boca da gente
Se enrola contente
Mas que cousa louca nunca vi cobra girar!
Mas vamos em frente porque
o quebra queixo faz muita gente engasgar
Fale eu
Fale tu
Falemos nós
Sobre o amor debaixo dos lençóis.

Brás Cubas.

Lógica

É logico que a lógica é lógica
É de certo que a matemática
Com toda sua epifania
E metodologia foi
Quem fez Aristóteles assoviar
A lógica minha
A lógica sua
A lógica de ninguém
Há em algum lugar a lógica
Pra toda gente brincar.

Brás Cubas.

Rima

Prima pobre
Prima rica
Prisma da poesia
a e b
c e d
Eu não sei ler como você
Vamos treinar caligrafia
Pra todo mundo aprender
A rima é da poetisa
É do poeta
Que na espreita da noite revela
A gradação
A evolução
O coração.

Brás Cubas.

Luar

Lá no horizonte
Por detrais dos montes
E de muitos rochedos
A montanha
Com a branca neve
Anunciou
A lua minguante
Que busca o olhar do pagante
Pra gente toda enamorar
A lua cresente
É como o amor de muita gente
Que tem que desabrochar
A lua nascente
Talvez quebre a corrente
De muito penar
Ao topo da montanha mora
A lua cheia
Que incendeia
O nosso gozar
As fases da lua na rua
Na sombra da obra
Dá refresco até pra sogra
Da pra todo mundo admirar.

Brás Cubas.

Sapato

Sapato do sapateiro
Sapato de sapatear
Sapato de bailarina
É sapatilha
Sapato do príncipe
Sapato pro pobre sapo
Sapato do elnuco
Sapato justo
Faz calo na gente
Faz o pé reclamar
Sapato importado
Esse sim brilha alto
Mas esse sapato custa caro
Não dá pra comprar
Sapato na sapataria
Sapato no engraxate
Sapato.

Brás Cubas.

Soneto

Som de sussurro
Quarteto mudo
Estrofe paralisada
Quase um cântico
Entoa um canto
Dos deuses
Pra gente cantar.

Brás Cubas.

Ainda sobre a língua

A língua

Que a língua toque a pele
Que o pescoço revele
A maresia do olhar
Que a brisa entre ligeira
Nos olhos da menina faceira
Que a língua fale
Que a língua Sartre
Que a língua ferina
A da cobra é bipartida
Que a língua toque a boca do céu
Chupando cana de açúcar
O mel te leva pros céus
Que a língua absolvida
Se revele latina
Para a saudade brilhar.

Brás Cubas.