quarta-feira, 23 de agosto de 2017

As quinze línguas sabaticas

As quinze línguas sabaticas.

1- A língua de Eros.

I

Sois o mar dos meus olhos.
Sois o sol poente do Oriente.
Sois a beleza inexequível.
Sois a flecha do cupido.
Sois o irascível.

II

Sois minh'alma em cadência.
Sois o eu lírico em forte evidência.
Sois o falastrão da retórica.
Sois, de Platão, a memória.
Sois a volúpia inglória.

III

Sois o olhar onírico.
Por mil deuses e mil e uma vezes.
Sois o colírio de Narciso.
Sois amasiado com o orvalho.
Inda que sejas apenas um lacaio.

Tupinambá, o poliglota.

2- A língua das mães.

I

Sois meu ventre.
Sois meu sangue.
Sois meu parto.
Sois meu halo.

II

Sois meu mangue.
Sois minha lama.
Sois minha chama.
Sois minha luz.
Sois minha cruz.

III

Sois meu afeto.
Sois meu Complexo de Edipo.
Sois épico.
Sois eufórico.
Sois a chama do fósforo.

Tupinambá, o poliglota.

3- A língua das sogras.

I

Sois ferina.
Sois felina.
Sois ferrenha.
Sois lenha.
Sois a Medéia.

II

Sois o climaterio.
Sois a Primavera.
Sois mãe de alguém.
Sois filha de Maria ninguém.
Sois aquela que diz amém.

III

Sois a lembrancinha da infância.
Deveras ja fostes criança.
Sois aquela da pajelanca.
Sois quimera e esperança.
Sois milimetricamente a ponta da lança.

Tupinambá, o poliglota.

4- A língua do pecado.

I

Atabalhoada ganância.
Escrevo-LHE esta carta ganância
Para que voes.
Pois sois minha ânsia.
Sois meu vomitorium.

II

Sois meu dormitório e meu circunloquio.
Sois o sono e o sonho.
Sois o Santo e a sanha.
Sois o rei e a rainha.
Sois a guilhotina.

III

Sois uma pena de galinha.
Sois a renda da saiazinha.
Sois a Senzala e a Casa Grande.
Sois o que pensais.
Já fostes roda-gigante.

Tupinambá, o poliglota.

5- A língua do paraíso.

I

Inda que andasse sozinho.
Inda que velejasse sem o pergaminho.
Inda que tratasse o meu caminho.
Inda que velasse o meu cinismo.
Inda que rasgasse o meu achismo.

II

Inda que a pegada fosse levada pelo mar.
Inda que teus olhos nos meus achassem o amar.
Inda que as folhas secas do Outono caíssem acolá.
Inda que pedregulhos e plantas carnívoras se entrepusessem
Entre nós.

III

Eu e você, paraíso!
Seremos amigos.
Eu e você, paraíso inteligível!
Seremos amigos.
Eu e você, paraíso inteligível!
Seremos canção.
Por fim serenos irmãos.

Tupinambá, o poliglota.

6- A língua das cobras.

I

Sois heroína.
Sois carnificina.
Sois estricnina.
Sois mesmerizada.
Sois pasteurizada.
Sois pior que a língua da vaca.
Sois paradigma.
Sois enigma.
Sois Jibóia.
Sois Sucuri.
Sois Coral.
Sois Cobra d'água.
Sois a Naja.
Sois faca amolada.
Sois fel.

Tupinambá, o poliglota.

7- A língua dos sonhos.

I

Um cordão umbilical.
Um sonho sobrenatural.
Um verbo substantivado.
Um substantivo comum de dois.
O resto é só mais sonho, deixa para depois.

II

Um carinhosinho assim.
Uma casquinha ali.
Um beijinho aqui.
Um ectoplasma.
Uma máscara para Bhaskara.

III

O estreito de Bosforo.
O homem de óculos.
O mundo dormindo.
É eu sonhei contigo.
No sonho eu estava caindo.

Tupinambá, o poliglota.

8- A língua brasileira.

I

Vocês conhecem Policarpo Quaresma?
Ele mesmo!
Aquele!
Ele!
Que falava Tupi!

II

Pleonasmos vicioso.
Evitem a Zeugma.
E corram da Elipse.
Não caíam do caiaque.
Saíam da Cacofonia.

III

Fujam da Anátema.
E rebentam o Anacoluto.

Vistam-se de Preto!
Pois o Brasil.
Esse sim, está de luto!

Tupinambá, o poliglota.

9- A língua estrangeira.

I

Vejam bem! Eu falo a língua Portuguesa!
É a sua?
É  minha?
É de quem?
De ninguém?

II

Eu?
Eu?
Eu?
Eu?
Eu?

Egolatras e poliglotas.
Quantos são os verbos anomalos?
E os defectivos?
E as raízes de nossa singular língua
Que vibrem os sofismas!

Tupinambá, o poliglota.

10- A língua dos filósofos.

I

Há de haver uma visão de Santo Agostinho.
Há de haver tudo e nada.
Há de haver o que há.
Há de haver o mais do que aí está.
Há de haver a linha do horizonte.

II

Há de haver o Ocidente.
Há de haver de haver também o transcendental Oriente.
Há de haver coisas fora da intervenção humana.
Há de haver mágica e mistério.
Há de haver mágica e mistério.
Há de haver o que está por detrás do Monte.

III

Há de haver Ghandi.
Há de haver um lugar onde tudo é sacramentado.
Há de haver o que não há.
Há de haver o que está dado.
Há de haver o minuto de silêncio.

Tupinambá, o poliglota.

11- A língua da poetisa.

I

Vai saudade.
Vai embora no clarão.
Que nesta terra.
Relampeja o trovão.
Vai e leva o desamor agora que o amor não se demora.

Tupinambá, o poliglota.

12- A lingua antropofágica.

I

Tupinambá!
Tupi!
Na Beira do Rio!
Solta teu brado!
Do fundo do peito!

Tupinambá, o poliglota.

13- A língua da gula.

I

Framboesa e Umbu-Cajá.
Cerejeira e Morango.
Manga Espada e Pêssego.
Tâmaras Sagradas e Cravo da Índia.
Curcuma e Tomilho.

Tupinambá, o poliglota.

14- A língua da guerra.

I

É  necessário um batalhão por terra.
É  necessário um navio de guerra.
É  necessário um mercenário.
É  necessária uma legião.
É  necessária a religião.

Tupinambá, o poliglota.

15- A língua da Paz.

I

Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!

II

Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!

III

Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!
Paz ou Zeus? Adeus!

Tupinambá, o poliglota.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O prato da poesia

Para-raios,
Paraquedas,
Em quedas livres,
Porém outrossim 
para parir poesia
é necessário cuspir sangue
é necessário meter a mão no mangue
É  necessario cruzar rizonetos com decassílabos 
É necessário furtar as palavras do amanhã 
Ser visionário e equilibrar os pés no chão 
Seja qual for a bandeira que flâmula na tua pátria 
É necessario desejar o desejo alheio
Entregar-se na couraça 
E escancarar a glote
Vender na feira o caixote
Ser perdigueiro e ler Don Quijote
Rimar rico
Assintomaticamente ser profeta e vidente
É necessário estar livre dos versos livres
É  necessário pedir à Dieu                           
É necessário a Wissenchaft
É necessário o peremptório 
É  necessário o Agnus dei 
o pendejo
o bugiardo
E o grito do periclitante espolón.

Antonio Marcos Abreu de Arruda.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Por onde vaga a beleza das flores?

Crisálidas,
Crisântemos e belas flores,

Muita gente a miúdo e,
são muitas as dores,
como tudo no mundo das cores
é lúdico.

Assim afanadas as pétalas do que jaz
em mim,
revivem no Jasmim.

É um pouco de tudo,
e o muito de nada.
É forte e híbrido,
o barulho da cascata.

Da correnteza ao Alentejo
há um beijo certeiro.
E tudo que nos resvala é límpido
e escarafunchado.

Abri-lo-ei as toras das árvores
com um machado
para da seiva bruta
colher um bocadinho de Literatura.

Abrir-se-á minha bocarra:
-Duma falange de arcanjos
enigmáticos sairão palavras
e pedras de diamantes,
que fatalmente desamparam
a luz aos olhos do homem.

A parada cristalina.
A benevolência vitalícia.
E o que nos nos dizem do abdômen,
e o lobo que vira homem,
e o Lobisomem que vira lobo,
e a matilha que vira cardume,
e a colmeia que vira alcateia...
E os alcalinos terrosos,
e o cloreto de sódio,
e o mar, por onde deveras, vaga.

Antonio Marcos Abreu de Arruda.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Passatempo

Estou envelhecido,
assim como as folhas secas do Outono.
Estou cada vez mais antagônico.
Estou enternecido,
assim como quer-me parecer o porvir do rio...

Estou vívido,
assim como à vida não se pede o brilho.
Estou escarnecido,
assim como as estrelas que iluminam.
Estou em comunhão com meus irmãos.

Assim como as coisas taumatúrgicas.
Assim como do Arco-íris as cores todas são telúricas.

Estou absoluto,
assim como quem é dono de si e da turba.

Estou me sentindo em soluços,
assim como o choro deságua nos sulcos.

Estou com uma forte dor nos punhos,
assim como quem da luta fez seu resumo.

Estou em pleno rendez-vous comigo mesmo,
assim como quem da festa faz e desfaz o festejo brejeiro.

Estou como esse céu,
aonde o vento urge,
assim como minha ferida ruge.

Estou em pleno isolacionismo ,
assim como quem tem os calcanhares à beira do precipício.
Estou no convés dos paradoxos,
assim como quem corre da Doxa para a Sophia,
assim como o Sabiá assovia.

Estou na nau do Argonauta,
assim como quem perdeu a pauta.

Estou em chamas,
assim como o rubro fogo a todos espanta.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Axiomas de presságio

A morte lhe bateu à porta sibilando
como um gatinho que ranhe silenciando

deus como a pólvora do gatilho entrou em diálogo
logo lhe sorriu o diabo

deus correu para chamar os arcanjos
o diabo mamava nas tetas da vaca profana

um bezerro desmamado chorava
a arte havia lhe parido como parca

Baudelaire não falou nada
Rimbaud sorriu de canto de boca
Augusto dos Anjos foi mais singelo
Flaubert deu de ombros e foi-se como Nero

deus disse: - Todo eso és pura casualidad!
o diabo replicou:- Sou teu filho e do incesto

o cancioneiro tocava uma viola
um pianista na vitrola
um violinista dançava sobre pétalas de Valsa
Vênus era natureza morta
a Ostra abriu-se em pérolas
o homem voou como a Libelula

Um irmão comia o fígado do outro
numa festa onde ninguém dava palpite
só que deus é teimoso e disse de forma impoluta:

- Ides não vedes que tenho dúvidas!

Augusto Piè.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Ode às flores.

És tu beleza rara e vivaz
Já jaz atrás de minha porta
A porta de minha casinha floral
És tu oh flor das Onze-Horas
Ao meio dia e meia de fronte ao espelho
Tu me mordes, planta carnívora, e me olhas
És soturno desejo
Coroa para o defunto
Um mesmo tempo para o mesmo mundo
Entre terra e vermes periclitantes
Repique na tumba do amante
Donde surgem seres da mais variada espécie
Que flores são e exalam com exatidão
O exílio da canção
Natureza morta
Já bates a minha porta
Jardineira linda
Magnólia linda
Flor da Fruta-Pão
Sois Margarida dada ao peito do irmão

Augusto Piè.