sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Poema dedicado a ninguém

Dos mil palavrórios e envoltórios dos círculos sociais
Nada me foi tão válido quanto a não enxergar a mim mesmo
E nem o outro lado
Dos turbilhões de imagens e poluição sonora e visual
Pude ser recatado na esbórnia dos meus atos
Calado soube responder a tudo
E de tudo já farto
Sinto o peso de nenhuma experiência
Tudo não parece ter sido tão somente um caso de demência precoce
E os que me admiram
Deles não sei se os amo ou tenho asco
Lírico soube no cântico dos anjos
Que fui desalmado
Penei as penas das almas penadas
Vibrei no gozo da meretriz descalça
E fugi prum mundo de larápios
Roubei de mim tudo
Até a consciência alheia
Fui até o Carvalho
Olhei a árvore
Bebi alguns livros
E me tornei o céu em arame farpado.

Brás Cubas.

O escárnio

já corria-me entre os dentes a podridão humana
já me saia pela boca uma família cognata de palavras da boca suja do porco dicionário
já me lavavam as calçadas com pouca água
e de madrugada o galo cantava
para o peão que dormia
e que ao badalar do sino da igreja
se alevantava para dar feno aos bois
para depois
o boi engordado
cheio de carne entre as costelas
ser abatido
seu sangue lavado
para a gente da terra que a água na bica espera
e o povo do agreste comer sentado
no chão da terra
no chão arado
no pau de arara.

Brás Cubas.