terça-feira, 26 de maio de 2015

Poemas sem nome.



Puxa da algibeira o sabre
arade o canto da aorta no acre
curumim veleja sem alarde
Vades, já há um tempo que não ardes
peito meu
lençol freático das perseguições
É que um grito solto no horizonte
Reifica minha palavra ao longe
é que desse causo e ao acaso
foi me farto o infarte
E aquele corta legumes
lacrimejava látex
Era probatório o cálice
A boca me descia pela jugular trêmula
Eu ouvia a concubina
Saião da serena noite
E me vertiam vontades frouxas
risos céticos
lágrimas roucas
e perdões calados
esse meu peito
tropego tropeço
e caminho
E me corriam as mão ligeiras
pelo corpaço
uma cachaça
um gole de aço
uma espada na garganta
Havia de certo uma lâmpada acesa
pus minhas vísceras sobre a mesa
e o limiar estava lá
eu escrevia esse poema
era uma floresta inteira
o coração já perdera
a hora de entrar
E o teatro estava cheio
a platéia volumosa e espumante
o riso dos homens
lhes pusera a sonhar.

Brás Cubas.



segunda-feira, 18 de maio de 2015

Sobretudo



atracado ao pétreo porto duma masmorra
regurgitado pelo desalento e acalento manso
fugi das algas marinhas
pelejei nas entrelinhas
parvo e parco
tântrico e oco
galei o pólen
titubeei nas clausuras
rouco e mais além
pródigo e finito
bojão d'ouro
água fina
quinquilharia e marmita
e sobretudo e sobre todos
ah! Eu ria
atravancado na chave da gaveta
a conclave sobremesa
pela dentina me sucumbia
eram amarelos de nicotina
eram topicamente utópicos
os vazios dos sorrisos
o ângulo perpendicular
a oração no altar
e a mialgia
circunspecto de alforria
peripatético eu ia
folhas amassadas
brancos papéis
crateras divinais
perpassado pelo passado
obturado pelas nuvens
aclamado pelo louvor da existência
derrego a peremptória
exaltação do nada
e fidedigno ao troço
traço tropas
que perfazem escoltas
e meu barraquim
felpudo jardim de arques
d'alma polifórmica de Velázquez
ampolas verossímeis
nanquim de araque
pasmem
a linha contínua
é resoluta e tragicômica
cerceando a lucidez dos manicômios
trancafiando o incólume linguajar das bestas
e ia eu caminhando no prólogo da desfaçatez
era eu
era tudo
vesti meu sobretudo
era a minha vez.

Brás Cubas.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

Baile da solidão



E cá eu estava,
no deletério impropério da solidão
E cá no peito meu tombava
Uma dúzia de toneladas de coisas quaisquer
e um beliscão

um puxão pela orelha me assinalava
que já começara meu baile da solidão

E cá no pé da mesa de centro
uma arbitrária força bruta e centrífuga
que me ralhava a mandíbula soturna
traçou uma reta certa e fagueira

E cá ao pé do ouvido meu
Ouviram os gemidos seus
eram tantos pruridos
que dó

E cá n'alma minha
era uma festa linguística
era o clube do bolinha

Era a transpiração

E cá no meu sapato
Em teus passos
Me perco e me acho
e os calos de outrem dizem não

E cá na rua dos transeuntes
bebuns e seus argumentos
de pestanas e vermute
bebiam sacramentos

E cá à luz da escrivaninha
Donde meus dedos
Propunham que minha boca falasse besteiras
E o papel que era branco ficou colorido
Uma brincadeira de versos contidos
Era uma alucinação

E cá de dentro da poesia
Donde escrevo
Ela, minha companheira querida
nela,
arguta e astuta domadora de sonhos
que de lágrimas fez um rio risonho
Me refestelo primeiro.

Brás Cubas.

sábado, 9 de maio de 2015

De volta.



Luz dos meus olhos negros
retorna à casa da morada minha
minh'alma alarde
na fulgurosa batida falha
desce dos céus lua nata
desce descalça
te dou passagem e bravata
tateia meus silhos
traz de volta o brilho
dos olhos meus

Encanto dos festejos
rebeldia desvelada
prateleira embaralhada
louça suja
roupa lavada
amor de pirraça

Volta luz da minha voz
que ecoava a cada toque dos lábios teus
traz de volta o gosto febril
o céu anil
e a onda do mar que era mais azulada

Espelhos e lantejoulas
piruetas e ceroulas
pijamas e piratas

Volta pra meus abraços
Me prende em seus braços
Me rebento no cais

Volta para o meu jardim Margarida
Tua voz escorrida
Me parece fugidia
Eu quero te alcançar.

Brás Cubas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Retorno à pátria.




Adentro o vértice do ventre
Atabalhoado e cambaleando
Ando no arado dos sonhos
Pernalto e cabisbaixo
Ando andarilho
Ávido e parvo
Ácido e cálido
Tácito e tóxico
Reverbero o sincero patriarcado
Volta à terra minha
A pátria das sombrinhas
E do sol faustoso
O céu me faz alvoroço à chegada
na porta da fronteira da minha alma.

Brás Cubas.



terça-feira, 5 de maio de 2015

Insólito




Sigo insólito na pedreira amiga
Sou a nau da onda ribeirinha
Sigo o imbróglio nas mãos da peregrina
Sigo inglório na prece da menina
Sigo o latido dos arautos e da vitrina
Sigo as ondas sonoras da guitarra espanhola
A sanha da minha ira
E eu iria num salto cruzar a ponte
E eu ia voar alto pelo horizonte

Sigo pelas sílabas fálicas por minha boca fabricadas
Sigo pelos versos de cada esquina
Sigo no esvoaçado céu cintilante e nublado
Sigo Pero Vaz de Caminha
Sigo com sinhás e perolazinhas
Sigo na coxia do teatro
O sinal do último ato
Tristão e Isolda viriam e ririam

Sigo tão somente passos passados
Verso e prosa da minha mente canina
Sigo o vidrilho
O estribilho da voz pequenininha
Sigo mesmo assim vadio assim de mim mesmo achado e perdido

Sigo em retas sem curvas
Em ruas vazias
O silêncio é meu amigo
Em horas desvalidas
E transo minha mente em uma sadia coxalgia
Nevralgia d'alma minha
E eu que de repente me sigo
Minha própria sombra amiga.

Brás Cubas.







domingo, 3 de maio de 2015

Uma verdadeira correria




Ei-lo: - o solilóquio ali posto na vitrine.
Ei-lo: - o circunlóquio ali exposto no rosto.
Ei-lo: - o exotérico em cada palma da mão.
Ei-lo: - e ai de ti quando nascemos irmãos.
Ei-las: - a rebeldia e a sabedoria.
Ei-lo: - o peremptório mundo do avesso.
Ei-lo: - o provisório voo da alegria.
Ei-la: - a procacidade do preço.
Ei-lo: - o halo da cidade.
Ei-lo: - o desejo.
A cidade arde em disritmia.
São tantos e tantos anseios.
Uma verdadeira correria.

Brás Cubas.