quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O axioma




Remedios Varo



   O axioma

   A Salamandra deu para colocar pimentas em boca de poeta. Ela mesma, a Salamandra que dos contos de fada tece uma teia ao seu povoado, ela - vidente dos arautos e cúmplice dos sacripantas – lhes vos digo pilantras de plantão: - A Salamandra é o olho do abismo e a cólera do furacão.  É borbulha do coração no fervilhar das mentes. É, sobretudo e sobre todos o rosto da multidão. É o discurso diurno enquanto o conluio noturno está exposto na soleira de vossas portas.
   Bandarilha do Cabaré de nossa santa inquisição e perseguidora de santos atos, a aflita que media o conflito dos desarmados em busca de ilusão. Ora, olhem as horas! Não vêem que o tempo já não lhes passa a mão na cabeça e a Salamandra festeira se regozija em vossa sujeição? Eu que de capataz me faço sua vítima, expus minha ferida em gratidão, conquanto vedes e acordes a Salamandra já nos pôs sobre as cabeças sua ampulheta e não haverá um arauto equânime para que todos os certames se assentem na poeira da translúcida, senil e austera memória.
   Vede a hora passa em passos largos. É que o tempo perde tempo inquirindo vosso abraço de irmão. E assim o feliz desatino fez do menino e da vida somente um eco no horizonte. De antemão, lhes digo de peito sincero que a Salamandra vai-se embora em qualquer dia dessas horas que lhes passam de mão em mão.
    Preciso de outro parágrafo para lhes parafrasear que também lhes passe de mãos em mãos o pão fabricado por vossas mãos. E vos desejo o que almejo e vos desejo Salamandra e mansidão.

Brás Cubas.

Dores sem nome



Nathalie Cocorullo

Ai! dos meus Ais
palavras soltas perambulando
refugio do escândalo
Sândalo d'almas
permuta escrutinada
parafernália amontoada
Monte e montante
que chove aos montes
enluarada sílaba
mímica da rima
e prima da nota musical
eu que era corriqueiro
pus a mão no formigueiro
só para saber do testa de ferro
de que gado sou brasão
Ai! de minhas retóricas toscas
de minhas palavras ocas
e postas em aglutinação
justamente a posição
é fogo e queima essa brasa
incandescente e vibrante
de muros e murmúrios
d'alma o douto louvor
e a água purificada
já não era mais nada
que o sabor da língua cortada
e as palavras ralhavam comigo
do estômago sôfrego trôpego lustre
onde a luz é um abutre
que descarna a carniça
era eu de preguiça
chupando Mangas Rosas
era um trevo de trovas
um sírio e um terço do preço
o purgatório é agora.

Brás Cubas.