Eu não era do tamanho do sonho
mas o sonho velejava nas Begônias do caieiro
no sonho do poeta bisbilhoteiro
O sonho revirou-se em rictos da nave louca
trouxe à beira do abismo
e flertou de forma lépida com o aberto sorriso
Abortou a tristeza das entranhas minhas
e revitalizou a mímese das imaginárias linhas
do meu céu azul
Desse céu acertou o pássaro que rodeava a montanha
seu pico era longe
seu degelo era frio
seu tamanho sublime
vergueiros e peremptórios
os sonhos dos sismólogos
eu que de cisma besta
cavalguei em cima da besta
que besta sou eu que cismei em sonhar
sonhar
sonhar
sonhar
Eu, a casa dos sonhos vida minha
partiu das nuvens da minha cabeça
um sopro de plumas e borrifões d'água
que desciam pela garganta minha
Ah! Eu, o morador de mim mesmo
sem de mim saber todos os sonhos
quis enquanto poeta ser sonho e poesia
poesia e sonho
mas muito sonho digerido
muito fogo engolido
vira braseiro no assoalho
Eu, vértice da circunferência
ela ápice da eloquência
o leitor é quem manda freguês
ainda que a leitura do pergaminho
lhes valha de um suplemento burguês
Eu, serei eu sonho e poesia
liberdade e rebeldia
unidas
pegadinhas num sonho
Eu, esse sonho já foi-se embora
eu e vós que outrora
entoamos a balbúrdia dos escombros
É, o sonho sonhou
que o homem nascia
que a cabeça ia
que nós descíamos uma ladeira cheia de latrinas
na rua dos sonhos
os poetas sentados
tocaram uma trova
tacaram fogo nas caixolas
do povo que vociferava a aurora
Fui-me para o sono longo
sou poeta
sou puro sonho.
Brás Cubas.
The Dance- Marc Chagall
