sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Vamos.



Vamos impetrar a causa nobre cáustica e derramar a falta de quinhentos anos de História da República do Brasil num partido com bandeira de esquerda com autoritarismo de direita e governança mercadológica. Vamos tirar o pequeno cala boca que numa tentativa, já da dita democracia de poderes anteriores, dos salários e benefícios dos excluídos. Vamos tirar o pingente de uma alma e consciência de um povo que acredita por ignorância totalitária que uma personagem política resolve tudo sozinha. Vamos desmontar a esquizofrenia das ideologias socialistas e extrema esquerda capengas. Vamos exorcizar as ações e os golpes do capital de giro, da dívida externa, do capital aberto. Vamos vender de vez não só a carne para a China mas as ervas medicinais da Amazônia ou o que sobrou dela. Vamos tirar a bengala do Catolicismo e de outras irmandades que ajoelham e rezam junto com o Estado não laico. O monstrengo Brasil. Nau sem navegante desde Cabral. Vamos fazer um texto bloco de carnaval. Expiar todos os pecados dessa falta de educação. A anemia do Estado chega a ser comparativa a fome política e estomacal do povo brasileiro. Vamos exortar qualquer chance de democracia. Chacoalhar as urnas que não podem mais ser abertas ou queimá-las como quem beija a santa Inquisição. Vamos com fome de jurisprudência encontrar no berço esplêndido onde dorme a consciência da pátria amada [...] amar o golpe e o contra golpe. Vamos controlar a imprensa que fala asneiras e que ora desmente besteiras sobre os navios negreiros. Vamos reformar a mente brasileira com meia dúzia de lições de moralismo. Vamos salvar a nação olhando os irmãozinhos sul-americanos e manter nosso complexo de vira latas. Vamos baixar a cabeça para a podridão que ronda o cenário internacional e os interesses exclusos de razão dos nossos idealizadores, dos nossos mestres e malandros da democracia. Vamos gritar e espernear seguindo nenhum exemplo. Vamos exaurir a totalidade do homem cordial. Abrir a porta de uma vez para os coronéis do sertão. Vamos assumir que assumimos o direito divino da improbidade em todas as esferas sociais do pais. O direito de usurpar uns aos outros, amealhar trocados na esquina. E no farol luz última no fim do túnel; dar uma gargalhada disso tudo e entender que nascemos brasileiros.

Brás Cubas.

Axioma

Querem saber das multitudes das harpas celestes. O homem de tudo em certas fontes bebe e ainda nada sabe de si.

Brás Cubas.

Adore Noir Magazine.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Poema dedicado a ninguém

Dos mil palavrórios e envoltórios dos círculos sociais
Nada me foi tão válido quanto a não enxergar a mim mesmo
E nem o outro lado
Dos turbilhões de imagens e poluição sonora e visual
Pude ser recatado na esbórnia dos meus atos
Calado soube responder a tudo
E de tudo já farto
Sinto o peso de nenhuma experiência
Tudo não parece ter sido tão somente um caso de demência precoce
E os que me admiram
Deles não sei se os amo ou tenho asco
Lírico soube no cântico dos anjos
Que fui desalmado
Penei as penas das almas penadas
Vibrei no gozo da meretriz descalça
E fugi prum mundo de larápios
Roubei de mim tudo
Até a consciência alheia
Fui até o Carvalho
Olhei a árvore
Bebi alguns livros
E me tornei o céu em arame farpado.

Brás Cubas.

O escárnio

já corria-me entre os dentes a podridão humana
já me saia pela boca uma família cognata de palavras da boca suja do porco dicionário
já me lavavam as calçadas com pouca água
e de madrugada o galo cantava
para o peão que dormia
e que ao badalar do sino da igreja
se alevantava para dar feno aos bois
para depois
o boi engordado
cheio de carne entre as costelas
ser abatido
seu sangue lavado
para a gente da terra que a água na bica espera
e o povo do agreste comer sentado
no chão da terra
no chão arado
no pau de arara.

Brás Cubas.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Os Mandaques

nem de mim sei eu nem os Mandaques com seus bodoques
de mim nem o Ateu sabe e nem a que Deus a porta me abre
já ando falando com falanges de anjos torpes e inteiriços
de olhos de pedra de cor de verde esmeralda

e com o sambaqui do limo das pedras
e com o grito das favelas sigo no visgo

sou eu sim
sou eu sim
sou eu sim
sim
sim
sozinho no caminho assim

nem de mim sabem os maltrapilhos do circo da vida
donde outrora eu soubera pular de trampolim em trampolim
nem de mim sei eu os prédios de Niemeyer e Gaudi
nem de mim sei eu a lua quando brilha

e o sol quando se anuncia me alumia a alma amiga

nem de mim sei eu as línguas faladas por povos celestes
e o jegue do agreste abriu um sorriso girassol para mim
e eu que faço de mim joguete na mão do destino

melhor eu que vos digo que todo dia
a poesia me bate a porta toda manhã
sim
sim

Brás Cubas.

Un dipinto di Giovanni Battista Caracciolo Noli me tangere 1620 circa Museo Civico  Prato


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Patacoada

Dessa patacoada de ideias o poeta nada leva a sério, nem mesmo seus próprios desafetos são sinceros.

Brás Cubas.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

De tudo e de nada

De tudo e de nada
nada chegou a nada
e o carnaval passou na minha cara
e o tempo soprou assovio menino na lata

E o alento que era bom tempo de nada
da manada sobrou nada

nada de nada

Brás Cubas.