domingo, 23 de março de 2014

Axiomas

Com o tempo o homem vai ilusionadamente substituindo as paixões pelos vícios, com se o um não fosse o outro e o outro é esse um.

Brás Cubas.

Tarde silenciosa

Tarde silenciosa

Se abria em toda sua formosura, eram os pingos da chuva que anunciavam o fim do verão
Se mostrava dengosa em toda sua flexibilidade marginal e sem pudor
Se refestelava nas memórias de afãs e delírios corriqueiros

A tarde silenciosa maliciosamente libertava as correntes da moral
Ela chovia como quem chora o burburinho das chuvas ácidas
A terra molhada trazia lembranças dos impropérios mais banais
Era ela, a tarde me encarava com o tempo que naveguei no barco alheio
O tempo rei de tudo me chicoteava o lombo
Havia um assombro no ar
O tempo veio me cobrar o preço dos sonhos inúteis

Se abria em cólera e náusea:- o tempo e a tarde voavam sobre minha cabeça que rodopiava

Eu de nada não sabia, nem cetim rasgado e nem alma penada
Já havia aferventado a água como se a calefação queimasse as penas do galináceo
Era como se minhas desventuras morressem naquela panela vazia

Era tarde demais para sonhos vazios
Calei a alma ensurdecida e me pus a dormir.

Brás Cubas.
Os ecos do silêncio parecem gritos estridentes.

Brás Cubas.