quarta-feira, 25 de março de 2015

A língua do demônio

Dirão dessa língua que é feita a Ciência
Outros dirão da boca do homem
Dirão da poesia sai o noturno rouxinol
São essas parábolas antigas
São esses atos falhos
Palavras que não são minhas
Dum vocábulo que mete medo
Que mete aço na parede da sala
Dum lugar que nem eu sei
Do quadro perfurado
A arte enquadrada na lei.

Brás Cubas.

sábado, 21 de março de 2015

Tapumes



Larga mão desse estrume
Derruba logo e depressa esse tapume
Esse brilho arraigado nos teus olhos estrelares
Deixa de lado essas imbecilidades
E teu frívolo lustre

Abre o código das estrelares galáxias
Essa química que no infarte renasce
Cresce sua verve e late
Deixa teu cachorro sem corrente correr no matagal verde

Abre essa joça de coração maltrapilho
Assina com nanquim esse ladrilho
Eu já me revi no retrovisor
Um expresso Oriente já por aqui passou
Um equinócio me falou de tua casta

Chuta esse tapume e brilha vaga-lume!

Brás Cubas.

Couraça



Ando vadiando a este bordo
Nessa tua boca cheia de lábios e sorrisos
Ando rodopiando meus dedos naquela tua viola
Ando me embolando em versos e prosa
Ando com a couraça a mostra
Ando com a nave na mente
Ando pensando em adquirir uma sogra
Ando com meia dúzia de farrapos
Ando com a tropa
Tenho andado naquela lua que sob o céu alumia outrora
Ando buscando para teu dedo um anel
Ando sonhando com teus pés perfeitos
Ando derramado nos teus defeitos
Ando de gatinho
Engatinho como quem se prepara para ser amado
Ando na contramão do sobressalto
Ando na mão inglesa
Veja bem espero que teu coração, em páginas desse livro, nosso amor reveja.

Brás Cubas.




sexta-feira, 20 de março de 2015

O livro das sinestesias



Era eu o teu sentido de vida
Eram tuas mãos e dedos sobre meu peito de chumbo
Era tua tarde e a Primavera de Margaridas florais
Era eu o teu reino de credos matinais
Era tua língua malévola
Era eu a tua taberna
Era eu o teu paspalho
Era eu com aço, alho e bugalhos
Eram migalhas de dor
Era o clamor do calhorda
Era a essência da cor
Era tua cretinice que murmurava conselhos
Era tua parva chacota
Era tua irrisória vitória Nagô
Eram os tempos lambendo o vento do porvir
Era tua mente tacanha
Eram seus gestos medonhos
Era tua entranha que vinha ao meu falo
Era eu dentro de ti
Era o que sentia o sambaqui
Era tua mente torpe e quadrada
Era tua presteza
Era num tempo de comer à mesa

II


Com a língua posta entre os dentes
Era um tempo de carne fresca
E madeira nova
Era um tempo do luar
Era um tempo de patifarias
Era um tempo de banho d'água fria
Minh'alma ria
Sombria
Era tudo passado no tempo presente
Era você no espelho
Era você o conselheiro
Era tua morte diplomática
Era tudo e era nada
Era ainda tua cabeceira falante
Eram meus pelos horripilantes
Sob a indulgência de tua língua esguia
Era tua boca nervosa
Teus dentes e esqueleto
Era eu o teu desassossego
Eram teus gemidos marginais
Era um bando de animais
Era uma sensação líquida
Era vívida àquela mórbida finitude
Era tua música que me acariciava os ouvidos moucos
Era devagar mais um pouco a chegada àquelas ilhas tuas
Teus interiores me solicitam
Era eu adentro
Era o meu coração na tua veia
Meu sangue batido
Minha voz sorria
Me corriam vermelhos e excrementos
Eram pétalas de flores nos ares
Eram cheiros dos arades
Eram frutas frescas
E folhas secas
Era o chá das cinco
Era uma e meia
Era minha pele tecendo artimanhas
Era o meu suspiro
Era tua Babel in vitro
Era inócuo
Era Protestante
O dinheiro restante

III


Era o resto de tudo
Era minha saliva nos teus beiços
Era um nego falante
Era um ar respirante
Era uma sinestesia
Eram meus dentes que sorriam
Eram teus mamilos sanguessugas
Eram tuas pátrias absurdas
Eram festejos
Era de tudo um pouco
E nada disso tudo
A vida vertia na minha cova
Era a sorte da esbórnia
E qualquer solução
Eram as tuas engabelações
Lições de criança
Era o cabedal
Era o paradigma dos Astecas
Eram as milhares de Marrecas
E eram os Flamingos dançantes
Eu lhes tocava as pernas
Eu vos amava de certa maneira
Eu cantá-lo-ei
Nós amamo-lo
O verborrágico passado de Hera
E a era Perestroika
Leiamos Trotsky
E Florbela
Era uma outra era
Uma coube numa
Doutra esfera
Tudo era
Era eu que dormia no teu ombro brejeiro
Era ligeiro o último verbeto
E eu corria com a sílaba anátema
Quererdes tu um sapopemba
Ides tu a era dos falidos
Vedes teus martírios do harém
Era um harém além do além
E flores fúnebres lhe cobriam o rosto putrefato
Mordiscado por formigas abelhas
Amigas da rainha
que tu eras.

Brás Cubas.







segunda-feira, 16 de março de 2015

A tirolesa



Verte em rio tuas barbas profanas
Verte em mim tua alma deslavada
Sua cama é um drama lírico
Eu que de tudo vi no rio
E o nosso empirismo não bastou

Verte em lágrimas as tuas entranhas
Come a carcaça da aranha
E a flecha nata
Que corre e que mata
Subiu com o eco da mata
Eu fui apanhar

Um bocado de pedras
Dessa pátria de merda
E seus colossais

Verte em verde e amarelo
A bandeira estribilho
O nosso brio
E mais nada.

Brás Cubas.


quinta-feira, 12 de março de 2015

Aos benditos



Vos digo e bendigo
Tudo sopra para os benditos
Tudo no passo da meia hora
Tudo no rabo da cobra
Tudo na língua de trapo
No sapo calado
E no querubim de armário

Vos digo e bendigo
O sacristão
O pagão
O pão
E o santo do pau oco

Vos digo e bendigo
no grito do eco na imensidão palavra
Na casa de minha pátria vencida
Por morais doutros homens

Vos digo e bendigo
àquele homem pródigo
de chama acesa
a cera que escorre da vela
Zilhões de caravelas

Vos digo e bendigo
Na saia da dama de Calcutá
Chamaram um qualquer Alá
Para os lados de cá
E a poesia foi alardear

Vos digo e bendigo

II

O choro pranto do mendigo
O canto do inimigo
A canoa furada
A marmelada
E a pedra de sal
Vi uma prova cabal

Vos digo e bendigo
Um fato rebolando na mente
Para a minha gente
Só um brilho na mente

totalmente abrangente de mares e marés

III

Sois assim
E de mim saíste calado
Cheio de coisas e sapatos
Um rio córrego
Um dia nublado.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Amor de irmão



Noturnas notórias flautas de Si bemol e Arautos náuticos
E naufragada imensidão
Pluralismo da Ilusão
Solidão de solavanco
Pé manco
Alçapão
Amor limão
Flor de morte
Cheiro de sorte
E hum Irmão.

Brás Cubas.