Caminhada.
Ando me embolando com amores a torto e a direita
Ando marchando nos pés da esquerda
Ando cantando como canta a flauta doce
Ando a cavalo
Já não quero dar coice
Ando andando como quem caminha sem volta
Ando batendo na própria cara das portas
Ando bebendo no sei da solidão
Ando feliz
Ando farfalhando pedaços de sentimentos
Ando nas chuvas do verão
Canto o sol no clarão
Ando marchando meu irmão
Escondo o ópio no bolso do capataz
Ando com a voracidade dele que é voraz
Ando carcomido por centelhas de outrem
Ando no telhado da tigresa e da lince
Ando sobre a riqueza dos príncipes
Ando cantando versos de Rimbaud
Ando contigo meu amor
Ando com a esperança e a liberdade de mãos dadas querendo saltar o coração
Ando com a espada que quer lhes arrancar a bossa canção
Ando por andar
E pelo caminho encontro
Ando sorrindo no teu ombro
Ando com a bandeira da pátria estampada na cara
Ando com cara de palhaça
E vou dando gargalhadas
Ando querendo mais do que espera o dia
Ando na noite que é minha menina
Ando e ando e ando
Sem prumo ou pudor
Ando com o ardor que queima na vida.
Brás Cubas.