terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O demiurgo e o dramaturgo






Entraram numa peleja de palavrórios
e a retórica sucumbiu à dialética emérita
o discurso os uniu num símbolo simbiótico
aferventaram a bandeira do sortilégio

Cada qual entrou galopando seu cavalo
o demiurgo na patacoada dos sonhos freudianos
e o dramaturgo beijava as oliveiras de Pompeia
e eu olhava aquilo tudo de forma astuta e melindrosa

Pueril e viril o demiurgo num achaque virou-se para o dramaturgo juvenil e vociferou:
- Logra tua fama, que meus ditames já gozam do escárnio de sua má fama
E o faustoso dramaturgo soltou numa réplica:
- Ide às pressas buscar a primavera da minha oratória-
Ordenhe as vacas do meu pasto e aí quem sabe te conto meus contos de milênios

Cessaram a voz num instante
uma gota d'água se estatelava no chão
eis a chuva que começara a cantar.

Brás Cubas.