sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Los espejismos del sueño

Los espejismos caen del cielo
vosotros habéis leído mis cartas
rápidamente las he sacado de sus manos
y de su boca salieron las lentejuelas del fuego

Súbito, he cerrado el rincón
y hasta las palabras de díos
han llorado una lluvia limpia
Aunque querrás decir adiós a el Tambaqui

Habrás cortado el cordón umbilical de la puta madre
bailando con su sonrisa por toda la calle
besando a su boca del carne roja
Me fui con la soledad

Que cambia todo
ahora toda la gente delira
y pone fuego en todo
hasta en las ruedas del Tiempo.

Brás Cubas.

Perino del Vaga  La caduta dei Giganti





Les hommes qui chantent

J'ai déjà apporté mes souvenirs musicals
avec tous les mots du passé
sans le bateau ni le verre du vin que vous buvez
croisez vos mains dans la tête des hommes

Regardez mes cheveux gris dans la lumière
retournez la tête à moi et ma musique aux soleil
partagez le vin et la viande

Quand la lunette passe vite
C'est quand les étoiles pleurent
nous dormons ensemble ce soir
nos amis sont tous dans nos rêves

Ils disent qu'ils ont le bonheur et les parapluies
surtout, nous buvons de la vie.

Brás Cubas.

Edgar Degas, The Orchestra at the Opera, 1870 c


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Rough zone



It is a quarter to ten o'clock
Quickly the men ran away of their ought
As a blob upon the flows
My hands running through the glows

Moonlight

Throughout my bloody veins on the roll

I sold your blood when I let it my neck onto the sword
And I had filled up the atmosphere with flowers and gardens
I have grown on the path

I escaped from the darkness and the blow
Thus, within my lack, therefore I was pushed back by your soul
The yellow roses were floating all over our bluish river
There was not the goat
There was not any boat.

Ain't you listening to the birds on the road?
They rang the trustful serenade
They sang the beauty of the sadness
Out and from the inner of our bosom

We might have been sinners
Hearing the sound of the bells
The clatter clarifies the odd poetries
Poems I should have had in hands
Those ones I made it to you
Not in vain
All my love is claiming

Let us ride the life within her optimistic ways.

Brás Cubas.

Marc Chagall.






Palavras pisadas

Mas que malícia saída da boca minha
Palavras minhas
Eu que vos falo
Saiam do meu estômago em sangue pisado
Eu que vos cuspo o veneno, ao vento, do pensamento das cabeças dos homens ilhados

Inda que o homem tenha seu corpo purulento pisoteado pela ferradura do cavalo
Maltrapilho e ferido
Seguimos eu e o cavalo no imaginário dos vigaristas vigários

Em sua reza premente
Eu de joelhos em seu rosário
O corsário do terno das Treze Aves Marias
Ave voa
Ave vida
Espirito líquido escorrido da boca nossa
Da Boca minha
Da Boca do Inferno

Eu que tanto vos quero palavras minhas
Que de minhas não saem de tão presas
Liberem esse rio represa d'água pororoca

Vai-te de mim e de mim rastejam cobras ilustres
E de peles viscosas
Como a língua da chusma

Eu sou o povo
Eu sou a poesia
A poesia é quase tudo quando não talha o nada
Porque nada é tão real quanto a ilusão da palavra que sai do peito de um pobre homem
Livre são sim as palavras
Posto que o voo é do tamanho da queda
Mas a palavra dita
Como a pedra atirada
É infalível e inevitável e irrefutável da queda estatelada

Palavras saem por ai a vagar noites e dias de sertões e mares do mundo
Palavras que quando proferidas, a mim não pertencem mais
São vossas
São de todos nós

( E eu que entrevejo )

O arreio do cavalo sobre o odre dos nobres favos
Eu que relampejo no céu dos purgatórios
Voo nas asas do abutre
Demagogo das fétidas carniças

Palavras são coágulos embutidos nos entraves das carroças
Eu que chafurdei na palhoça de outrora
Supera aferventar as sílabas acrobáticas
Dos poetas saltimbancos voadores
Eu convosco talhei palavras de finos e tristes amores.

Brás Cubas.



Caravaggio Conversione di San Paolo realizzata nel 1601




quarta-feira, 26 de novembro de 2014

O beijo nebuloso

Tácteis as mãos em nuvem de algodão
Floresceram sobre o crepúsculo
Fazia um nevoeiro no abraço do perdigueiro

Era uma nuvem trovão
Violando o verão
Da terra sentia-se um gosto de frutas e folhas herdes
As ancas da bela musa contorciam-se de maneira lêveda

Os trovadores e cancioneiros do alto abismo do céu
Fustigavam o feno cheio de destemperança
As bocas metonímias senão do corpo em confluência daquelas almas
Sumiam na fumaça do Tempo

O beijo nebuloso
Mais que garboso
Lhe consumiu por inteiro

Mel que provido por falanges do céu
Virou o quartel da santidade de ponta a cabeça
Beijo anárquico e pudico
Quem a sombra beija, beija o próprio narciso.

Brás Cubas.


Antonio Allegri detto il Correggio, Giove e Io, 1530 - 1531 c


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Opereta constipada

L' opera del giorno  Artemisia Gentileschi, Giuditta e l'ancella 1614 -20 ca



Que do véu do tântrico ventre cavernoso
milhões em sumários vasos capilares
hirto em plena luz do parto
o halo sangrento da coroação dos vermes
que cantam em Operetas peristálticas
sopram do ventre masculino sobre o diafragma feminino
o sobressalto da Soprano e do Tenor

Pudera que terror! Seria o arauto dos fluídos de compaixão do compositor?
Eis que vós de nada sabeis
Ides ao habitué e confrontarás as depravações
As deportações e as deplorações das amas de leite negras

Crede na fé dos homens onde deus se esconde em cada palavra
Funde o rito e o beneditismo que flauteava minhas precatórias
E senta-te ao lado das nuvens dos anjos verdejantes, pois o céu está de boca aberta

O que planta-se nessa nossa terra?

Eu deveras saber da lápide e do horror dos soldados e dos segredos de suas tumbas
Eu soubera que o fim duma era começou noutra
E que tudo gira.

Brás Cubas.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

A climatérica

San Rocco con il donatore

Sobreposto sobre as enxadas esculpidas no céu das nuvens
O ar fresco pois-se a fritar a cena que se via
A aureola mais que divina impunha sob a tutela da melindrosa culpa
O sabor do desatino ferido, frio e esquálido
Um ar frio de outro logradouro soprava correntes benignas

E eu! Ah! E eu me vestia com a roupa dos santos
Estava aberto o céu do lacaio
E o lagarto e a zebra sorriam e corriam
Num jardim sem paz
Num jasmim desesperado.

Brás Cubas.

domingo, 23 de novembro de 2014

A dança do rosto

crivado de senso retórico e helenístico
a dança do rosto em vibratos sucumbiu
à terra arada
ao útero da amada
e da palavra cruzada
credo! Que recesso d'alma
acalma minhas virtudes
nas linhas dessa pintura esculpida e oculta em tua face
você de mim se afastou quando me apareceu na miragem.

Brás Cubas.

Irina Ionescos iconic Jocelyne, 1974

sábado, 22 de novembro de 2014

Fotografias

retrógrados recessos excessos da arcada dentária
espólios do brilhante meu
oratória das saudosas fotografias
da iguaria exibida por detrás dos côncavos vazios de vossa máscara

retração d'alma aflita e tilintada no cristal e na sintonia do Pinot Noir
o retrato Das Maultier que Miró não plantou em sua tela de adamasco
tu tiveras asco de mirar-me nos olhos
inda que tivessem eles, olhos meus, meus olhos meninos e lancinantes
inda que deles vertessem sólidas lágrimas escusas
inda que tivesse eu acabrunhado sobre o infame infortúnio de ter dado o braço ao capataz
ele que veloz corre e atropela as trepadeiras da mata seca; fez-me cínico e ultraje
despi-me dos trajes e da máscara
era a hora da sorte
o pescoço na adaga
o adágio do carcamano
eu entrei na tocaia por engano
no baile de fotografias dos mascarados.

Brás Cubas.



Antonio Mora Art.


Zumbidos

folhagens ricocheteando o estrume ignóbil
da paisagem esperançosa da Terra
assobia o sopro plural das folhas das cerejeiras
madrigueira aquela visagem sua primeira
aprumou-se no mérito de todo o horizonte

sua seiva bruta labutava na subida à copa
sua boca fechada e trincada entre os dentes pendendo da mordaça
sua visão foi tomada por nefastas infindas nações

sua primavera e o outono fundidos no insidio rubro dos lábios pálidos

ouviram zumbidos dos insetos mais diversos e parvos e ávidos e cálidos
senti no ouvido um incomodo sedento de algo
sem alvo, e aos teus pés ( donde fazia uma sombra fresca ), me pus a dormir os teus sonhos.

Brás Cubas.

Antonio Mora.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Reino patuscado

Rei de eira e beira
Rei! Oh! Céus flamejantes do Rei!
Sentado no trono
Todo Rei é fiasco contado

Rei do Reino patuscado
Dos tropeiros e andarilhos
Dos sentinelas amigos vossos

Do fundo do fosso do poço do Reino
Reinado por mim e por todos que em mim habitam
Por todos nossos versos ainda não escritos

Por toda a saliva das nossas papilas gustativas
Palavras aos montes digeridas e dirimidas
Trépidas e crédulas do credo do canto Canônico

Meu nome heterônimo é ato falho da luz da lucidez minha
Eu que não queria saber escolher-lhe a dedo
Ele como uma seta flecha sem reta mirou-me na órbita craniana
De maneira tal qual não pude escapar-me de seu doce deleite

E fui-me sem conselho e nem verbeto
Batizei-me sem rio nem leito
Num nome de uma personagem
Que ofuscou-me o olhar de forma tática e última
E fora do globo a espera de qualquer lugar comum

Rei, tu que sentantes à sombra das minhas ideias
Fez-me climatério do náutico
Cáustica é a pepsina
Meu suco gástrico
É árduo bater em ti palavra da caixola minha

Sai pela boca ou pelos dedos da maniqueísta mão direita
Mãe e provedora do talento de qual não possuo na esquerda
Já que dela não se espera nem que possa dar cabo do garfo


Como as palavras como um Rei devora a bancarrota do seu banquete
Verossimilhança com Baco ( Rei de Deuses que são bebedores do vinho Dionisíaco )

Trata da camuflagem pilantra
E das tabernas e das alcovas da vida
Trata das palavras que são por mim tão estimadas
Tenho-as em alta consideração
E tenho dito!

Brás Cubas.



Antoine Coysevox. Louis XIV

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

De todo tipo de sorte

De todo tipo de sorte desde que flamulou e desejou àquela coisa, coisa essa que dardejou na ideia
coisa essa sabida de todos que era uma sabatina altivante e atroz de nós
trançados e alcovitados por arvoredos estreitos e guerrilheiros das trompas de Falópio e de Eustáquio
trocaram beijos de Herodes no tabernáculo das paixões do séquito indelével e da plausível rebordosa

um só furdunço de ditosas autoflagelações e dos sermões das Carmelitas Descalças
Jesuítas chamados Jesuinos e genuínos Babuínos num circunlóquio propriamente dito de quem se deixa jogar na Ciranda das Palavras Mascaradas pela sublingual trapaça dos axiomas soltos nas bocas e nas dentinas
Era de uma clarividência da providência divina e assim dizia qualquer deus ao seu povo que nada vos faltaria, nem a carne, nem a lama do porco

essa matilha sabida que era latia quando podia e dizia: - por deus! Que Chuva era àquela que vinha
a eles e a tudo convinha de forma que a beberagem frutificava a libidinosidade

Rá! Alguém riu alto no reino! E vociferou contra os astros e as vacas e o gado e contra àquela matilha de gente em fila Indiana
num prurido de Castro Alves se auto indagava onde deus estava naquela puída lapela dos chapéus dos homens pobres e os odres puseram-se a correr para cozer o sangue e coser a pele dos porcos.

Brás Cubas.

The Bacchanal of the Andrians. Titian




Essas e outras faces

Esse rosto vernáculo de celulose
É a soberba heroica dos desleixados
Esse rosto traço a traço
Que deveras ser o garimpo do meu globo ocular
Opulento e sedento de psicopatia

É, essas e outras faces me ardem o cerebelo
Quase que um bacanal Helênico
Uma flâmula faceira e indulgente
Do patriarcado que comicha meus neurônios

Insidiosos esses e outros rostos
Me petrificam de forma tal qual é o sol do Oriente
Vertem em intrépidas cedentes
fontes de aclamação de linchamento
de socos truculentos nas pontas dos bisturis

Eu fiz e me refiz de rir de mim
E de mim não conheço mais nada
Nem o rosto no espelho moderno
Nem o passado espúrio

De mim mesmo não sei nem dos choques elétricos
E do cinismo dos médicos dos doidivanas

Eu proclamo aberto o hospício e a prisão
Encarcerem a solidão exumada
Toquem um hino de categoria nacionalista apátrida

Como o aborto da margarida do bordel da Lapa

Foges e te escondes dessa tropeira
Esse bando de antas e toupeiras
Só querem teu rosto aniquilar.



Esse agora já demora o tempo de uma ida ao Olimpo
Cruza retilineamente a retina de quem olha
Ai de mim!
Meu ais!
Meus Pais!
Meu País!
E o meu Carnaval.

Que rosto é esse?
Eu te deflagrei nas mastigações do meu ciso
Minha mandíbula regurgitava em vômitos
Meu sarcasmo indômito
Envolveu-te no véu das larvas purulentas
Que rosto sorte de tormenta!

Não me olhes, não quero de mim saber de tuas traças
Faz como o caramujo que habita a própria carcaça
E vai olhar esse teu rosto nojento noutra freguesia.



Esse de sorte parece que dorme
Esse rosto que não me acolhe em sua morada
O crânio pendido do cachaço
Lóbulo frontal me confrontando

Parece até que anda armado ainda que sob a tutela dos olhos fechados sonhe.

Brás Cubas.

Guy Dennin.



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Contra-movimento



Subiu a peia pela goela do veio d'água
eram todos astronautas cacófatos e hiatos daquele rio
solapando o estômago cheio de ares
eram pias batismais cheias de glória e sem ácidos líquidos
cozinhando no enxofre da choldra pútrida

Falanges de feromônios num incesto de iconoclastas
de todas as misturadas plebes e castas dilaceradas nos pulmões
faltava água para a ribeirinha filantropia
e o ordenado ia num caos simbiótico tal qual a canoa tomba

Filetaram as sodras dos equinócios e dos relinchantes equinos
Parvo do alto de uma torre isolada
Um espécime de pura estirpe urge em gritos de leniência
Ah! Era A Gaia morta, era a passagem da Ciência

Fomos nós rostos uníssonos de uma vontade do riso frouxo
Subimos eu, nós e o manco a ladeira íngreme
Taciturnos abjetos de todos e de tudo e ainda torpemente sublimes

É que o contra-movimento vive do ácaro
escondido dentro de um calhamaço
entrevado no leito da vida.

Brás Cubas.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Devaneio

Devaneio
Devaneio no passo a passo do lento passo passado do tempo
Devaneio por anseios de conselhos
Entrevejo o espelho e o biombo faceiro
Devaneio por minha amada poesia calada na ferida d'alma
Bebo o copo com a gota d'água já sôfrega
A lágrima da chuva discorre sobre o vento
Eu quisera mil alentos mais
Eu pudera mais escrever devaneios mil

Devaneio essa poesia fantasia
Que minha real ferida à lembrança me traz
Ao mar revolto
Ao porto
Ao balanço do cais
Devaneio poeticamente
Eu que esbravejo sou o mar que vai e vem
Eu que sou o mago do horóscopo
Uso qualquer lupa e vejo mais
Devaneio por amar a poesia
Ela que se revela
Ela que não se aprende
Não repreende e não se desfaz
Ergo em mim o devaneio para sonhar em paz
Brás Cubas.




A sabedoria do amor

É, toda hiena ri
É, todo amor é aprendiz
É, todo ódio parece real

É o homem é um animal
É o vento batendo em sua porta
É a lembrança já te alcança
A memória já lhe espanta
Com fotografias do passado
A realidade é um asco
E o amor farto já está farto
De doce ser
Você que queria ser
Acabou me querendo por querer.
Brás Cubas.


Boca

Teus lábios no meu
Tua boca é minha
Tua saliva na minha

Nosso beijo é trivial

Tua boca respira
Teu lânguido pulmão elimina
Tua voz que me alucina
Teu grito de dor
Teu gosto de amor
Teu mel da boca
Teu arcanjo no céu
Meu amor tu tens lábios de mel.

Brás Cubas.

O amor é uma coceira

Falemos de amor
daquele asneira
Que te dá até coceira

Debaixo dos braçosMesmo quando te abraçoNem cócegas sinto
Falemos do amor
Pintados nos quadros
Embutido e enlatado
Que já vem pronto requentado
Falemos do amor microondas
Que vibra na frequência das ondas
Das parabólicas bucólicas
Falemos do amor madrigal
Aquele que está estampado no jornal
Falemos de algum amor
Mas de amor falemos
Amor bicho carpinteiro
Que parece inteiro
Mesmo que dividido em pedaços
Falemos do amor carnaval
Da festa do animal
E do homem o desejo carnal
Falemos do amor grilo
Aquele que peleja no teu ouvido
Falemos do amor de mansinho
Para que dele possamos tirar todo o néctar
Falemos da selva
Da coceira na canela
Do amor ferida
E das feridas do amor.
Brás Cubas.


Aldeia do Tupi

A Aldeia do Tupi

Matou a sede do amor
na carne do freguês
O povo francês
Buscou em terra Brasilis
Firmar terra
A terra da tribo era
O amor era sem pecado
O amor era selvagem
Era bom
Era algo
O amor era puro
O amor não era a lavagem
Dos patrícios europeus
E a sífiles do plebeu
Beijou a boca do ateu

É meu amor amigo
O Tupinambá
Mandou caçar o amor
Amor meu
Pernas pra que te quero
Amor sublime por isso te espero.

Brás Cubas.


Todos tentamos

Todos tentamos
É preciso que o amor melhore
De cara
De roupagem

De formaÉ necessário que o amor crie coragemVoe nas asas da liberdadeOs joguinhos são menos necessáriosA mesquinharia que fique guardada no armário do passado
É necessário a leveza da beleza
O charme de algum romantismo
No abismo do amor rodamoinho
Que ele venha carma
Que ele venha calmo
Que ele seja grande
Que ele seja amor profundo.
Brás Cubas.

A arte de voar

A arte de voar

Voa tua andorinha
Voa voando alto no céu, aquele azul cintilante
Deitado de braços abertos perante as nuvens brancas do céu
Voa andorinha
Voa no céu
Voa voando 
Que o beija-flor é o pastor do mel
Voa minha poesia menina
Melindrosa e arteira
A poesia liquefaz
Artefato do ato
Que faz o sorriso sorrir
Bate na madeira
Deixa tua alma voar
Deixa tua voz cantar
Deixa a mente do homem brilhar
Deixa o pensamento navegar
Deixa eu cantar
Deixa eu voar
Deixa ele voar
Deixa o bem-te-vi e o Colibri
Deixa todos os pássaros passarem
Em bando voando
Em ordem e desordem
No balé natural
A poesia voa marginal
Deixa que o homem voe livre
Deixa que o louco ligue
E perca a razão
Deixa voar o vento na imensidão

Brás Cubas.

Me diz o que o carioca tem

Me diz o que o Carioca tem

Eles vêm do mar
Banham-se no mar
Eles são belos
Eu e os cariocas somos o elo

Do mais puro e singelo
Beijo salgado
O corpus suado
Da água do mar

O mar não se engana
Com o mar que a onda sacode
Nem baiano nem o carioca pode.

Brás Cubas.

O aval do artista

O aval do artista

Ele não me permitiu
Ele nas dunas sumiu
Fumando um cigarro
Deu mais de mil tragos
Eu que lhes trago
Essa fantasia em forma rítmica
Eu que danço com a bailarina
Eu que me afogo no teu ombro
Engulo o teu soluço e choro
Sou o vento que sopra no mar
Ele, o artista já não me quer cantar canções de ninar
Eu que sou ligeiro
Perdi o pincel
Vendi teu anel d'ouro

Minhas mãos correm por teu corpo
Meu sangue borbulha dentro do teu
Ai por deus chama a Amália
E a maresia
De braços dados com a poesia
Venha minha
Venha menina
Sou tua sina
Vamos badalar os sinos das igrejas góticas
Vamos derrubar com Derrida as retóricas
Vem viajar no meu mundo comigo juntinho
Assim como quando fazes beicinho
Te passo a mão pelos cabelos
Vou só te fazer carinho
Não te afastes de mim
Esse jazz que coloquei na vitrola 
E o vinho tinto na mesa
São oferta para sua poética beleza
Vem comigo
Lá pras bandas da Ponte de São Francisco.

Brás Cubas.

Edgar Degas.




A beleza do ser

A beleza do ser

Ser e ser mais e ir mais e mais ser
Estado de Espírito
Espirito Santo
Manto de Santo Gregório
O Gregoriano canto
Eu que remo te alevanto
Eu viajo o mundo em uma frase
Eu que crio o verso em silabada
Eu que te miro no meio da cara
Eu que sou quando fui
Já não sabia de nada
Eu que me escondo dos escombros
E da molhada chuva
Essa rima foi espuma
Já voou no ar
Eu quero mais é amar
Ser ou não ser
Eu quero mais é viver
E você que vem nesse trilho comigo
Batos palmas para você.

Brás Cubas.

Balança

Balança

Balanceia a onda do mar carrara
A pedra pérola arpão do mar
Joia rara
Eu que sonhara
Nós que pulamos
Da pedra da Gávea
Pra um voo internacional
Quero ver de Berlim seu periclitante carnaval
Eu quero nadar onde não haja o mar
Quero amar as pedras
E beijar as flores belas
Quero tua boca na minha
Sua coxa entre minha língua
E teu rosto fabricar
Não quero ser pornográfico
Isso em minha alma não veste o hábito
O Jorge Amado
Amado era
Vamos embora para a Bahia
Dançar no axé dos Orixás
Eu quero é mais
Dançar qualquer balé.

Brás Cubas.

Poema de figurinha

Poema de figurinha

Eu que tenho meu amigo
Eu, meu amigo, já te escuto
Da sua voz não fujo
No seu peito durmo
No seu âmago luto
No seu ego berro
No seu elo espero
No seu porto navego
Na sua âncora aporto
No seu rio atravesso
No seu travesseiro vocifero
No teu sonho te acordo
No teu beijo me molho
Na tua chuva corro
No teu coração penetro
Na tua alma me revelo
No teu espelho me quebro
No teu alvoroço piso firme
Por mais que eu te estime
Do poeta só a poesia se espera.

Brás Cubas.

Qualquer coisa

Qualquer coisa é linda quando raia o sol
Qualquer sorriso seu abre o horizonte
Qualquer coisa traz seu beijo 
Qualquer coisa ao seu jeito
Um bem querer me faz
Um bem querer me traz

Qualquer lugar é infinito quando te beijo
Qualquer face é tua na rua 
Mesmo quando não te vejo
Qualquer romance é o nosso
Qualquer passado logro
Qualquer estrela brilha


Brás Cubas.

O amor.

O amor

Procurei você em cada estrofe
Personifiquei cada palavra
Com discurso e espada
Para te encontrar você o meu amor

Amor cognata
Amor cognata
Amor que me mata
Amor.

Você era o amor
O amor era você
Nesse soneto de espera.

Eu fiz uma quimera
Para você sorrir
Volta para o mar
Volta a sorrir.

Brás Cubas.

Antonio Canova - Cupid and Psyche Standing 1796 - 1800


Era...

Era...

Era tua pele na minha boca
Minha palavra era tua alforria
Era o amor no corredor
Éramos nós que corríamos.

Era mais do que pudera ser
Era mais do que o infinito propusera
Era mais que eu quisera
Era mais do que devia de haver.

Era uma coisa tão forte
Não se chama de sorte
Paixão tão bonita.

Era eu mesmo no espelho
Só para olhar o rubor dos seus cabelos
Era eu mesmo.

Brás Cubas.


Arno Breker.

Você

Você

Era você que me afagava noutras horas
Era eu que te tomava nos meus braços
Nessas horas eu me fazia de astronauta
E voava pela sala de estar te contando bravatas.

Era você que me empunhava o punho em forma de aço
Para desdizer o estardalhaço
O grito do abrigo
Eu corria para os seus braços.

É você que me abre a porta
Quando chego daqui a meia hora
É você na sacada da maloca.

É meu coração pequenino
Cada vez que te olho viro menino
E meu sonho salta do limbo para o mar.

Brás Cubas.

A alça

Tamara De Lempicka - The Convalescent (1932)

A alça
Bela sobre o ombro despojado
retirada pela doce mão que eleva a visão ao seiotocada pelos dedos tocadores de pianosaiu dos traços das curvas uma valsaé pura luz seu olhar enfadonhoseu cabelo bisonho não avoava não havia brisa emérita no ar
vertigem do rosto saudade
pluralidade de rimas da cabeça ainda não saídas
sob a celulose exposta e à beira da mesa ainda não escritas
naveguei-te em outras horas naus
trafeguei um século todos os navios do atlântico sul
Eu revia minha linda amada saltitar em favas
Seu mamilo com cabelinhos em tremelique
Da pompa ao repique de tambores da floresta a ecoar
Era um sonho
Mas estava eu vestido com trajes de gente que anda acordada por aí nessas calçadas sujas
Sonâmbulo eu estava no preâmbulo de dizer eu te amo minha amada.


Para desvelar esse sonho de paisagem
Pico donde do norte que nos apontava
Eu ressonei bem alto
Brás Cubas.