segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Carta a Brás Cubas

Caro alter ego emérito Sois o Fogo possuído em tua própria masmorra Sois a minha rouquidão e te imploro paciência inglório foi teu fim pela mão de um Machado. Assis lhe deu um velório peremptório e eu lirico fico aqui pós mortem e te abro a brisa lho cedo a vida e minha coroa que será vossa onde tu reinaras e sobre teu reino morarão as Araras e cantarão teus versos até os invejosos de ti - a palavra caída do bico dos Rouxinóis eles cantarão teus remendos os tecendo com mis-an-plis. Heterônimo por um dejavi Claridade metafisica carne suja da esquina e raridade E tu que vens a mim retornas para repassar a tua estoria a limpo Pulando a mureta dos assuntos eu lirico lamento o lamurio de teu ego obscuro. E te respiro loucamente de forma materialista. Saravá a ti Brás Cubas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Sinfonia ao cu.

Ah! O cu! Foi-me dito pelo barqueiro:
-Neste barco nenhum de vós entrareis
Vejam bem e não me levem a mal
Elevem a mão aos cus
Pois o cu é uma dádiva de todos os Deuses
Hebreus, Plebeus
Ai meu Deus!
Hora! Hora! Hora!
De sarrabulhada me salvem o cu dos Ateus
Deem Adeus ao Amor
Fervilhem meia duzia de clamor
Rezem um terço de rosário
Pois de rosa em broto é o formato
O anatômico cu
e imaginem só como deve ser quentinho
o cu de Satanás
Nem me soltem Barrabás
Voraz sangrando e sugando em resplendor ventosa
tudo e a todos
O cu é uma chama acesa
Com o que dele se faz só se há uma certeza
O cu!
Essa beleza espalmada em minha mão
Toca-lo-ei em dedilhar
Um alfabeto com a língua
O dedilhar da guitarra de Paco de Lucia
Nas teclas de Bach.

Brás Cubas.

domingo, 6 de dezembro de 2015

No céu do Brasil

Nevralgia e agonia agô
A justiça rola seus dados
Aço e laços
Um palhaço
A Rainha está encurralada
Sete aves vão revoar
Uma machadinha para aclarar
Pedacinho do céu
Pincel que pintou de azul
Azul do anil
do nosso Brasil,

Brás Cubas.

sábado, 3 de outubro de 2015

O que há e o que não há



Karin Seppar



E há de haver um infinito espaço entre a coberta e a minha cabeçorra
hão de haver flores amarelas expostas sobre as cabeceiras de cor roxa
hão de fluir peças de roupas esganchadas entre meus braços e a coxa
E há de haver um fastio tresloucado entre meus dentes: xícara na louça

E havendo tudo isso: o avento, o avental e minha pachorra a rondar
houvera tempos de beijos doces e tudo parece rodar: caixote e papelote
havendo tempo de tudo se encaixar na memória do sacerdote
houvera um lugarejo onde o ronronar e o ressonar e o paladar explodem

Houveram esperanças
Hão criancices
Há alguma alegoria

Houve alegria
Houve chuva e ouvi o frio
Houve alforria.

Brás Cubas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Poema sem pensamento



a cunha do crivo é sabática
o cunho do pulso aberto é falácia
o cunhado do primo e a farfalha
o irmão do ismo chocalha
a família comprou a grinalda
na porta da igreja selaram com um beijo judas
pareciam juras
e calaram-se para todo o sempre na eternidade da cúria Romana.

Brás Cubas.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Eu era da esfera
Eu era da terra
Eu dividia a terra
Eu fui no rabo do foguete
Eu queimei a fogueira
Sem eira nem beira
foi-se o foguete

Brás Cubas.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Testa de ferro




qualquer testa é uma testa
qualquer testa de ferro
sangue que escorre quente
qualquer homem é só mais um homem

qualquer mão é só mais uma mão
qualquer uma de um irmão
parece firme o alvo
parece cretino o apedrejado

parece a dança do diabo
o capital é a valsa
dancemos a serenata

o que é meu não é seu?
o que é seu não é meu?
o que é de quem?

Brás Cubas.


sábado, 26 de setembro de 2015

Conglomerado sem nome




e em Tremembé ralé
e em Santo crivo o pilo
e em quorum corpus
e em toda parte arte
e em cima da mesa ouro
e embaixo da telha o barro
e debaixo da mina o barroco
e em Itaquaquacetuba a urda 
e em palavras de mudinhos Bocaiuva
e em Terra de Barão ade varão
e na pata do cão lama.

Brás Cubas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Axiomas de prelúdio


Sem nome



Petricor foto


O veneno fermenta sobre o estômago
O cabeçalho é uma folha cheia de estômatos
A lambisgoia era outrora o cair da folha no vento
O calcanhar era a batida que se ouvia no alento
O passo era o passado do presunçoso ciumento
A traça era o furo no busto da camisa de Seda
O tapete dos logradouros de Kashmir e da Pérsia
O alfinete que cozeu esse plebeu em banho maria
A água fria lhe arrepiou a pele pelada
A alma descalça
A choupana esgarçada
O parvo e parco ogro sai a dar piruetas
Ah! Ele queria falar o mundo com singela presteza!

Brás Cubas.

sábado, 19 de setembro de 2015

Mar sem nome

E a poesia trigueira me passa a perna ligeira
de forma tal e qual aguou meu horizonte
de forma tão pura e bela uma voz me tocou
de forma tão profunda e unânime
que não pude escapar
palavras poucas existem para me afagar
poucas são as sílabas de um soneto para revelar
o mistério do mar.

Brás Cubas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O axioma




Remedios Varo



   O axioma

   A Salamandra deu para colocar pimentas em boca de poeta. Ela mesma, a Salamandra que dos contos de fada tece uma teia ao seu povoado, ela - vidente dos arautos e cúmplice dos sacripantas – lhes vos digo pilantras de plantão: - A Salamandra é o olho do abismo e a cólera do furacão.  É borbulha do coração no fervilhar das mentes. É, sobretudo e sobre todos o rosto da multidão. É o discurso diurno enquanto o conluio noturno está exposto na soleira de vossas portas.
   Bandarilha do Cabaré de nossa santa inquisição e perseguidora de santos atos, a aflita que media o conflito dos desarmados em busca de ilusão. Ora, olhem as horas! Não vêem que o tempo já não lhes passa a mão na cabeça e a Salamandra festeira se regozija em vossa sujeição? Eu que de capataz me faço sua vítima, expus minha ferida em gratidão, conquanto vedes e acordes a Salamandra já nos pôs sobre as cabeças sua ampulheta e não haverá um arauto equânime para que todos os certames se assentem na poeira da translúcida, senil e austera memória.
   Vede a hora passa em passos largos. É que o tempo perde tempo inquirindo vosso abraço de irmão. E assim o feliz desatino fez do menino e da vida somente um eco no horizonte. De antemão, lhes digo de peito sincero que a Salamandra vai-se embora em qualquer dia dessas horas que lhes passam de mão em mão.
    Preciso de outro parágrafo para lhes parafrasear que também lhes passe de mãos em mãos o pão fabricado por vossas mãos. E vos desejo o que almejo e vos desejo Salamandra e mansidão.

Brás Cubas.

Dores sem nome



Nathalie Cocorullo

Ai! dos meus Ais
palavras soltas perambulando
refugio do escândalo
Sândalo d'almas
permuta escrutinada
parafernália amontoada
Monte e montante
que chove aos montes
enluarada sílaba
mímica da rima
e prima da nota musical
eu que era corriqueiro
pus a mão no formigueiro
só para saber do testa de ferro
de que gado sou brasão
Ai! de minhas retóricas toscas
de minhas palavras ocas
e postas em aglutinação
justamente a posição
é fogo e queima essa brasa
incandescente e vibrante
de muros e murmúrios
d'alma o douto louvor
e a água purificada
já não era mais nada
que o sabor da língua cortada
e as palavras ralhavam comigo
do estômago sôfrego trôpego lustre
onde a luz é um abutre
que descarna a carniça
era eu de preguiça
chupando Mangas Rosas
era um trevo de trovas
um sírio e um terço do preço
o purgatório é agora.

Brás Cubas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Soneto do desatino



Categoricamente afirmo o desatino
paulatino o piano desafino
lustro o lustre a este bordo
pinto e bordo a bandeira

Não pelejes por besteiras
meu versos falam quietinhos
sem eira nem beira
são versos meninos

Vede este soneto em puro desalinho
vasculhando um sentido perdido
poeira da mufa do meus longos dedinhos

Dadaísmo e procacidade
vamos ver a cidade
e gritar a Liberdade.

Brás Cubas.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Poemas sem nome



Dariuzs Klimczack

deletéria a mão forte
sobre o desejo de sorte
desceu com um raio ao norte
clarão e vastidão
e o horizonte se abriu
em um sorriso amarelo
o dessabor sincero
era o paralelo
e um elo
diz um poeta que provou:
-que tinha gosto de Caramelo!
mão macia de penugem leve
que voa nas quermesses da paixão
pueril ilusão juvenil 
que passa e dá de ombros
teu passado é só escombros
no limiar da ilusão
plenitude sombria
o desvario desvaria
na palma da mão
o poeta lê um mapa
em mil e uma cabeças sonadas
entre as mentes caminha
entre a gente entrelinhas
na calada da noite
aguerrido o açoite
da mão irmã
mão amiga
mão escorregadia
mão co-irmão
mão corrimão
mão que escreve
a mão que revele
a mão que rebele
a mão do golpe à utopia
mão que repica 
mãos a solta
uma mão a outra.

Brás Cubas.





domingo, 13 de setembro de 2015

Poemas sem nome



Chris Ruiz

rebenta e desdobra
o enredo que desabrocha
é a rosa-dos-ventos
é o cálido e terno tempo
é a carícia no rosto
é o espaço do rubro
é uma coceirinha no umbigo
é de lua e branco brilho
a paisagem sobre os trilhos
é a jornada aclarada
sobre os jargões da jornada
essa minh'alma
essa escrita carta
a escrivaninha me fala
sobre os mistérios do zodíaco
sibila e entoa de pompa à proa
avoa e avoa.

Brás Cubas.

sábado, 12 de setembro de 2015

Poemas sem nome



Claudio Ferrari foto Adore Noir Magazine

eu, e ali jogado meu baú de memórias
eu, e aqui togado mais um gole na esbórnia
eu, e acolá meu Jaraguá em cócegas
eu, e já é hora de mais firulas ômegas
eu, e o permissivo tempo a passar
eu, e seu ponteiro lunar
eu, que em meia-hora ao meio-dia
eu, que iria por entre as rochas dançar
eu, que em verso em prosa quero ninar
eu, que persevero no sonho
eu, histrião e anfitrião d'alma neurastênica
eu, rebelião e comichão de vida alheia
eu, que piso no chão da tua aldeia
eu, imã e magneto
eu, reviravolta em manifesto
eu, aí que prolifero
eu, que escorrego no córrego do rio lágrima
eu, que exaspero no voo da águia
eu, que respiro fundo no trago do cigarro
eu, que sou no mundo um pedaço de farpa
eu, que de poeta me fiz serenata
eu, a poesia me quis hibernando a sonata
eu, soneto gregoriano e florim
eu, do bolso furado me fiz conto de rés por um Arlequim
eu, retrógado besouro duma árvore pintada à nanquim
eu, periquitinho e passarinho vou de passinho em passinho ao clarim
eu, entre perdidos e achados fui encontrado assim
eu, jogado às traças do teu guarda-roupa cheio de cetim
eu, bicho-da-seda fiz perolar o vil
eu, que de nenhuma certeza tirei duma reta a estrela do céu de anil
eu, que da ufanista beleza espremi o sumo do teu navio
eu, que naveguei em cargueiros e cheguei aqui
eu, que da infinita aura te elevei ao Himalaia
eu, que noutrora revivi a aurora
eu, que de memória fiz uma pernóstica túnica
eu, que te via como uma coisa minha única
inimaginável nau e corte e súdita
palpável lisura do sonho agrura
coração em apuros
desejo único
saudade linda.

Brás Cubas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Poemas sem nome



© L O G A N • Z I L L M E R

mortificada à margem do rio
beirando o desatino
tua beleza em desvario
petrificada em seus olhos mansos
a imagem do desengano
lhe enxugou o pranto
enxaguou o acalanto
Vida! A beleza natural
madrugada virginal
que sucumbia
e eu ia
e eu ia
e eu ia
perseguindo tua imagem vã
eu ria do riso
era sacal o teu sorriso
era igual ao eu lírico
tuas pegadas em minha desordem
um fato de pura sorte
um fardo que carregara
a fotografia queimada
um primata lhe falara
dessa tua beleza insensata
era eu que ainda te buscava
no sonho o teu complexo de Édipo
parelho um filme eclético
sucesso psicodélico
um grito histeria
você era minha santa imagem
que falara um monte de bobagens
inda que solicitasse liberdade
com os grilhões presos às asas
era eu que te cantara
esse verso canção primata.

Brás Cubas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Poemas sem nome

tua identidade fálica
coreto e falsete
tua pele tenaz
arrebol do cais
claridade árida
sórdida empáfia
liquidez humana
vigília da Salamandra
teu repique bacana
que abocanha minha sanha
tecido rasgado
que caído aos pedaços
sombreia os pés da cama
minh'alma em chamas
proclama tua aureola
tua fama de santa
que já me encanta entre ouvidos
sussurra gemidos
aos curvilíneos ouvidos
de quem te ama.

Brás Cubas.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Corpos sem nome



Krunoslav Večenaj

ei-la a birosca
para um dedo de prosa
escapulida do torniquete
santo clérigo verbeto
ignominia do cacete
ei-la a vela que vela o corpo gelado
intrínseco desalmado
pordes tuas mãos em contrição
fardes uma comunhão
tardes e manhãs
sois colérico caso
frenesi do astro
caos e causo
estrela maior na boca do céu
nuvem branca e pincel
internato dos meus desvarios
palato do meu assovio
pernóstico reboliço
idiossincrasia plástica
arte metálica
ei-la a ave
Ave! E reina
sobre a peleja.

Brás Cubas.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Poemas sem nome



Nathan Hervieux

tua mente torpe e rasa
inda naufraga
inda solta rajadas
inda que canoa furada
inda que chão sem estrada
inda que a lua de prata
incinere minh'alma
é que que a saudade rasgada
deu para voar no meu canto
é que no meu leito
inda te vejo
sempre que me deito
é que a tua ausência
se fez permanência
eloquente
é que o meu colibri
já não voa por aqui
meu jardim sorri
quando o pólen
cai do bico do bem-te-vi
é que tua mente é solidão
e me devora a passos lentos
é que o meu desalento
se pôs a iludir
inda que a calma desague
o rio e a margem
não findam por aí
e quiça você veja
inda que furtiva
minha mente vazia
cheia de nossos retratos
é que o pedaço que falta
quebra- cabeça que encaixa
no quadrado desse lamento.

Brás Cubas.

domingo, 6 de setembro de 2015

Cabeças sem nome






cabeças cheias de perucas
cabeleiras peladas
cabeças peludas
cabeças desnudas
cabeças pelas ruas
cabeça posta
guilhotina
Oh, pobre cabeça,
olha por onde irdes!
já flagraram tua íris
em minhas pupilas
oh, cabeça inchaço
latejas sobre a lírica boca à boceta de Pandora
em verborragia agora
quereis sair por aí a andar
pendurada em pescoços
em pensamentos nebulosos
firmamento do destempero
cabeças e cabeças
quantas são em movimento
pólvora do pensamento
gatilho da fala
provérbio proferido
o predileto artigo
e a peneira d'alma
sois massa cinzenta
córtex e bulbo
vertebral conluio
beco sem saída.

Brás Cubas.





sábado, 5 de setembro de 2015

Poemas sem nome



Frodi Brinks

Pende a estrelar intergaláctica
da tua boca farpas
em uma fenda que se abre
revejo
tua silhueta árabe
e quimeras inúmeras
em mil e uma tumbas
uma voz que abdica
um foz que estribilha
um farol que alumia
um cordel que renuncia
da palavra alquimia
ao bordel das sabatinas
perigo e ânsia
a novena do mantra
há um par de anos
há quase um século
que da tua boca espero
um beijo insano.

Brás Cubas.




sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Poemas sem nome



Quem lhe deu as vestes deste ofício?
que d'alma sucumbe o lírico
poeta! Sois tu em forma tal
e tanto quanto amo a poesia
em forma de euforia
fórmula de alegoria
telúrico e tangente
que range entre dentes
palavra e sílaba
polissílaba abóbora
sois a minha tropa
e meu pingente
amante eloquente
pau. padre e pedra
o começo duma era
sois poeta e poesia
sois o hino da ilha
e o sino da igrejinha
o violão brejeiro
a gaita do sertanejo
o plasma do beijo
o gozo certeiro
primazia e esteio
soda cáustica
pele sobre pele
carne vermelha
luta de unhas
flores belas
sois festejo e melancolia
sobretudo sobre a cabeça minha
danças tango em sintonia
revela o demérito
perdigueiro e lépido
assanhado e manha
o conselho da minha cama
sonho meu.

Brás Cubas.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Poemas sem nome



Sandra Gottlieb- Adore Noir Magazine

que tremor reservo
à pele tua em reverso
deitada em lençóis brancos
e girassóis amarelos florescendo
às vezes que reverbero
que pentáculo d'alma tua
coberta de chuva
orvalho incandescente
meu olhar fugidio pelas ruas
mirava em fervor deleite
que vernáculo e cimério
vos beijaste o mérito em silêncio
que lhes traga a bendita prosa
um telhado com cheiro de rosas
que sacia a vida em gozo
o desespero que assovia
eu quis ser o seu moço
a assinada alforria
vos sabes bem do que corria eu
bem plebeu aos teus pés
falando de estrelas e astronautas
o que faria eu se tu ressonasse
o sino badalasse
e a hora passara
em minha porta trancada
que desvelo esperança
eu já buscara tua herança
e já lhe guardava as tranças
num camarim com bailarinas.

Brás Cubas.



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Poemas sem nome



Oliver Raschka- Adore Noir Magazine

Abraça a lascívia labuta
e de revés
abstrai o salvo-conduto
constrói a ponte viaduto
traz aquele pretinho luto
faz o arremesso
que meço e traço
o passo o trago
o vagão o cigarro
e a fumaça
que se desfaz
seu rosto
desfaçatez
é agora
é a hora
eu vou de vez
jaz o eremita irmão
o confrade são
e a emérita causa
o nobre e sua casta
o mar que invade Jacarta
vede alvitre preceito
vede a descarada mascarada
vede teus olhos n'água
sois meu espelho
imagem que prescrutou
minha insólita paz
foi-se embora com um capataz
levou a terra e a poeira do chão
doutros tempos d'oiros
e brilhantes lantejoulas e memórias
vede que meus olhos para os teus caminharam
o caminho não cessava
inda que meu passo esgotado
seguia a passajada
entre o biombo e o Mercúrio
Marte fez arte
e a Lua um clarão.

Brás Cubas.

sábado, 29 de agosto de 2015

Poemas sem nome



Karin Seppar- Adore Noir Magazine

subiu-me um calor pela aorta
bateram-me na cara a porta
foi de uma forma torta
que o trator expurgou minha obra

foram-se os pesadelos
e com eles as pisadelas
àquelas que passavam
horas à frente do meu assoalho
e meu quarto trancado
fazia vista à janela posta
em incólume ato
e a paisagem vibrava em meus olhos marotos
e marejava o olhar do sobreolho
e me intrigavam as fálicas intrigas
ouvia eu o que gritava o magricela
doutro lado ao derredor do meu jardim
adormeci e me pus a sonhar por fim.

Brás Cubas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Poemas sem nome

sobre o pescoço pende a mão
donde o colarinho branco
traça o peito anco
e vou dizer-lhes que hão
sobre esse chão
esse corpo que em passos vos pisa
essa mão e os pés ligeiros
subindo a íngreme torre de Pisa
peles e vergueiros
que se assemelham a vermelhidão
que sobre esse escrito a mesa exposto
as lágrimas de teu desgosto
um céu aberto e um varão
sobre a envergadura dos teus braços
foi perdido o meu abraço
e de retorno a tua mão
vou desdizer
que a mão é um fio de navalha
que tricota o passado do passaralho
mão que desatina em bugalhos
riu de mim no ato
que executo em firme gesto
é muito mais que incesto
a luz do sol vos desbravo.

Brás Cubas.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A primavera das flores




vulgo e nato lhe traduzo a imensidão
anuncio um rio de mansidão
caminho vis-à-vis
dou alô ao bem-te-vi
e beijo a flor do coração

escorrego sobre a resma
e sopro o trigo
o amarelo me é amigo

remo e tremo
mal navego teus sonhos
revés dos meus pés

de ponta-cabeça
por favor,
não te esqueças do poema
em cima da mesa.


domingo, 9 de agosto de 2015

A primavera das flores

deletéria e signatária
truculência primata
periférica e cognata
turbulência binária
benévola e lacrimal
virgindade astral

A flor que é astro da floresta
beleza iníqua
sordidez líquida
e fluidez nórdica

A flor que aclara meu juízo
fez-me conceito dos verbetes acima
flor de lira
a roda gira em busca da rima
e,
suprassumo do assunto
verdugo e Samambaia
água e torneira
torniquete
Aia e Valete
sax e trompete
Trepadeira

É a flor adjetivo
àquela que dorme comigo
meu pingente adstringente
obstante e onipresente
onipotente
segue quente
o veio da veia
É flor e mais flor, amigo.

Brás Cubas.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A primavera das flores



Criva e uiva
vossa seiva bruta
e cálice
acalme-se
Há de certo uma certeza
na pureza da erva Cidreira

Tulipas e Xaxins
Vermute e verdume
querubim
quero assim
quero em mim
florar no peito teu
e ser jardim.

Orquídeas e Hortênsias
no furor o estupor da Ciência
Vide sem leniência
Já vos suplico clemência
Sortis uma reta dos fatos
O laguinho está cheio de átomos
E Vitórias-Régias

Sejamos elas
sejamos panaceia e vernáculo.

Brás Cubas.

sábado, 1 de agosto de 2015

A metamorfose das flores




Declaro silêncio aos sorrisos amarelos
Vos declaro abertos girassóis
Declaro sincero o peito aberto
O riso frouxo
e o aperto de mão

Declaro que toda a cidade
que dorme tão tarde
não mais cale a tenacidade
e o sonho vivaz

Declaro assaz a partida do amigo
e a chegada do satírico

Declaro a todos os santos
a liberdade atônita
a sílaba tônica
e a flor do Manjericão

Declaro que o fundo do prato raso
Está cheio de Dormideiras
( E de forma estranha
tenho dito )
que falam besteiras de montão.

Brás Cubas.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

A metamorfose das flores

Sois Lírio
Sois lírico
Sois hídrico
Sois etílico
Sois cílio
Sois idílio
Sois hilo
Sois pilo
Sois filo

Éreis flores do meu jardim
Prenda posta no Alecrim
Arranjo pronto
Festim louro
Papagaio e alpiste

Sois passarinho

Eu passarinhei
E tu passarinhais
Eu caminharei
Você vai florar

Aqui, cá no peito meu
Um jardim de coral.

Brás cubas.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Poemas sem nome

Para de amor falar é preciso
ter amado
ter sido amado
tecido de lã
tecendo manha
e ter sido manhã

Para a poesia vã
é preciso amar
ainda que não se ame
há quem ame mesmo sem amar

Para de amor falar
bom mesmo é sem amor estar
sentar-se à sala de estar
e ser de si o pop-star

Para de amor falar
é preciso ter se reconvertido
em clarão

Afã
Ala
Alça
Alazão

Para de amor falar
é preciso dele correr
e nele escarnar

Para de amor e de amor viver
é preciso saborear
a língua doutros
um bando de bicho solto
outro navio de Mouros
de fina corte
é qualquer amar.

Brás Cubas.


quinta-feira, 16 de julho de 2015

Poemas sem nome

Eu proponho a beatificação dos sentimentos ordinários
Que a plebe seja rica de euforia
E o gozo sagrado
O riso da amizade
Seja ela uma chuva brejeira
Uma forte tempestade
Seja ela um conflito
Um coração partido
Algo que arde
Uma chama acesa
Um amor impossível
Outro possível
Outro passível de suscetibilidades
Retornemos a amizade
Que ela seja íngreme como a montanha
Mais forte que o mar que rebenta na rocha
Que tudo seja arte.

Brás Cubas.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Poemas sem nome

Teu beijo denegatório
Sua aliança fálica
Tuas horas ao pé do oratório
Teu inglório sarcasmo
Teu país em minhas mãos
Sua imagem de santo são
Seu mapa de pegadas
Seu zodíaco e sagas
Minha alma flechada
Era uma libélula que voava.

Brás Cubas.

sábado, 4 de julho de 2015

Poemas sem nome



Bebes insolitamente a aguardente
Segues o leito do rio pranto
Num canto manso
d'águas verdes
Sois agora o que era veemente
Pudera a toga tirar-te a semente
Teu cérebro é um pingente
De extra brilho latente
Foges da minha mão
Escapas pelas escadas
Escapulis da minha boca
O mel é o céu
Ao léu
Em qualquer lugar comum e extraordinário
Falsário e ladrão
Comichão que arde
Te forço as pernas
Te pressiono as costas
e te beijo agora.

Brás Cubas.



sexta-feira, 26 de junho de 2015

Poemas sem nome

Traço o Troço Posso Forço e Ardo
Laço o Aço
Passo a passo
Cravo o átrio
Travo o ladário
Escorro pelo ralo
Sou aço e pluma
Champanhe e espuma.

Brás Cubas.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Poemas sem nome




Por um incólume momento não ouvi nada na sala
os quadrantes aos montes desenhavam
os lampiões acesos
o luar garimpeiro
o lugar

Por um incauto falei alto
estava estrábico o arauto
um soneto pendia do altar

Pela sombra do biombo
máscara da humanidade
luzes acesas por toda a cidade

E mais nada

Por um momento solene
calei a sirene
chamei à mesa a rotina
estavam meus dentes a mastigar

Era um momento de tudo ou de nada
tudo parecia primata
e sem ideia alguma
um montante de gente a caminhar

Um homem gritava disparates quebrando o silêncio
o sonho parecia um movimento
de pluma que voa sem se libertar

Por um momento olhei o horizonte
Titubeei por palavras de homens
Não sabia nadar
Mas me veio o fôlego

E em tudo ateei fogo
imagem
sombra
biombo
era a vida querendo brincar.

Brás Cubas.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Poemas sem nome

Tu poesia filha da boca minha
Tu palavra rabiscada
Tu vã filosofia e loucura prisma
Tu plebeu e reles santo
Tu anjo dos sonhos meus
Tu peregrino d'almas
Tu maré vazia, cheia ou alta
Tu vento e trovão
Tu, irmão
Tu cumplicidade brejeira
Tu claridade acesa
Tu que es fogo e ilusão
Tu que somes e se esboça
Tu que é o mais fino da Bossa
Tu que é camarada
Tu que é minha alma
Poeta
Poetisa
Poesia
Poema.

Brás Cubas.

Poemas sem nome

Havia muita gente por todo o lugar
gente de todo o tipo
ia dar o que falar
era uma gente tresloucada

O céu pairava no olhar
e o menino horizonte
que se esconde
é de se admirar

Havia muita gente por todo o lugar
nos prédios vazios
nas ruas uma chusma
na oficina vazia

Havia muita gente por todo o lugar
a chuva caia
o orvalho brilhava
minha mente assanhada
refez todo o lugar.

Brás Cubas.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Quererdes




Quererdes a água invertida
e o reflexo no espelho
Quererdes o voo da águia
e o beijo primeiro
Quererdes de volta a minh'alma
e os meus conselhos
Quererdes meu braços
e os meus abraços
em aconchego
Quererdes de volta cada palavra
e cada olhar quando vacilavas
em ser seresteiro
Quererdes o cajuí
e cada gota a fluir
em orvalho
Quererdes o tratado
e o descombinado
em firmamento
Quererdes e quererdes
como quem tudo quer
me querendo.

Brás Cubas.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Poemas sem nome



Nuvens e serafins
Teu pensamento naufrago em mim
Preste a haste da minha fala
Queria te dizer sim e sim
E outrossim
Fazer-te rir
Precisava agora
Outrora
ou
em
outra
hora
te dizer
que sim.

Brás Cubas.

domingo, 7 de junho de 2015

Poemas sem nome

Juergen Lechner Photography



é que as peripécias do coração
mais do que a canção
fez um verso
acordou meu violão

é que a estrofe parada
mais do que a risada
fez do meu travesseiro
amizade e mansidão

é que a lonjura
chegou perto
aqueceu a sala
beijou uma ala

é que a caminhada
pegada por pegada
na areia desenhada
fez comichão

é que a tua mão na minha
como uma lembrancinha
fez bater me o coração.

Brás Cubas.

sábado, 6 de junho de 2015

Pacto com a poesia


 Photo Gema Mahardhika

A poesia quis selar um pacto com a alma minha
Ela me fez de reverso e verso, o verso
E versando sobre mim
Eu de nada sabia
A poesia em mim nascia
Era o soar de um tamborim
Coroei nesse mundo
A poesia, ela é quem é a estrela
Não a minha poesia
A poesia não tem dono
Mas sim, a poesia em si
Metrificação de incertezas
Lugarejo escondido das avarezas
Plenário das alucinações
Vigário das aclamações
Fêmea e deveras macho
Nascida dum frasco de botões
Certeza das incertezas
Filha única e primeira
Santa, puta e irmã
O beijo na mão da sexta-feira
Poesia brejeira e alçapão
Poesia vívida e intacta
Estações de Primaveras terciárias
O furacão
Coração da chusma ressabiada
Averiguação
Fato sobre fato
E mais uma vez pura ilusão
Vos poesia
Vieste me valer
Ah! Poesia menina peregrina
Abarca a barca que não há em mim
Desata o nó dos melindres
Tua forma cilindre
Fez meu escarpim
Vede poesia é tu que a mim me talha
Me faz palavra
Me faz menos sábio e mais aprendiz
E nessa luta do sonho com a realidade
Poesia faz a gente sorrir
E nessa flora deflagrada
Eu, fui feito aprendiz.

Brás Cubas.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Minimização



Entre tantos olhos d'água
minimizei o minimalista
o sonho tacanho
a mordida abocanhada
a ferida revirada
o revoltoso pavor
e o sol para ver a lua se opor
a face exprimida
numa aquarela vazia
um nanquim amarelo
um sorriso fumaça
um trem no espaço
a sombra do passo
minimizei e guardei
lembretes e folhetins
notas de violas e bandolins
a maraca tocou uma valsa
passava de noite na balsa
o bálsamo clamor
era tudo ligeiro
um passo do tango estrangeiro
um beijo de flor.

Brás Cubas.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Poemas sem nome



Personifica essa Prosopopeia
Dá vida à essa ideia
Abre a fresta da janela
Deixa o Crisântemo entrar
Abraça o cobertor amor
Sois linda flor
Frutifica o ventre máter-dolorosa
Abre o verbo
Solta a prosa
Desvirgina a porta
Adentra o peito
Chega de conselhos
Já quebrou-se o espelho
E já levaram o Narciso
Eu que leio um pergaminho outrora
Vejo que o tempo de amar é agora.

Brás Cubas.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Poemas sem nome.



Puxa da algibeira o sabre
arade o canto da aorta no acre
curumim veleja sem alarde
Vades, já há um tempo que não ardes
peito meu
lençol freático das perseguições
É que um grito solto no horizonte
Reifica minha palavra ao longe
é que desse causo e ao acaso
foi me farto o infarte
E aquele corta legumes
lacrimejava látex
Era probatório o cálice
A boca me descia pela jugular trêmula
Eu ouvia a concubina
Saião da serena noite
E me vertiam vontades frouxas
risos céticos
lágrimas roucas
e perdões calados
esse meu peito
tropego tropeço
e caminho
E me corriam as mão ligeiras
pelo corpaço
uma cachaça
um gole de aço
uma espada na garganta
Havia de certo uma lâmpada acesa
pus minhas vísceras sobre a mesa
e o limiar estava lá
eu escrevia esse poema
era uma floresta inteira
o coração já perdera
a hora de entrar
E o teatro estava cheio
a platéia volumosa e espumante
o riso dos homens
lhes pusera a sonhar.

Brás Cubas.



segunda-feira, 18 de maio de 2015

Sobretudo



atracado ao pétreo porto duma masmorra
regurgitado pelo desalento e acalento manso
fugi das algas marinhas
pelejei nas entrelinhas
parvo e parco
tântrico e oco
galei o pólen
titubeei nas clausuras
rouco e mais além
pródigo e finito
bojão d'ouro
água fina
quinquilharia e marmita
e sobretudo e sobre todos
ah! Eu ria
atravancado na chave da gaveta
a conclave sobremesa
pela dentina me sucumbia
eram amarelos de nicotina
eram topicamente utópicos
os vazios dos sorrisos
o ângulo perpendicular
a oração no altar
e a mialgia
circunspecto de alforria
peripatético eu ia
folhas amassadas
brancos papéis
crateras divinais
perpassado pelo passado
obturado pelas nuvens
aclamado pelo louvor da existência
derrego a peremptória
exaltação do nada
e fidedigno ao troço
traço tropas
que perfazem escoltas
e meu barraquim
felpudo jardim de arques
d'alma polifórmica de Velázquez
ampolas verossímeis
nanquim de araque
pasmem
a linha contínua
é resoluta e tragicômica
cerceando a lucidez dos manicômios
trancafiando o incólume linguajar das bestas
e ia eu caminhando no prólogo da desfaçatez
era eu
era tudo
vesti meu sobretudo
era a minha vez.

Brás Cubas.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

Baile da solidão



E cá eu estava,
no deletério impropério da solidão
E cá no peito meu tombava
Uma dúzia de toneladas de coisas quaisquer
e um beliscão

um puxão pela orelha me assinalava
que já começara meu baile da solidão

E cá no pé da mesa de centro
uma arbitrária força bruta e centrífuga
que me ralhava a mandíbula soturna
traçou uma reta certa e fagueira

E cá ao pé do ouvido meu
Ouviram os gemidos seus
eram tantos pruridos
que dó

E cá n'alma minha
era uma festa linguística
era o clube do bolinha

Era a transpiração

E cá no meu sapato
Em teus passos
Me perco e me acho
e os calos de outrem dizem não

E cá na rua dos transeuntes
bebuns e seus argumentos
de pestanas e vermute
bebiam sacramentos

E cá à luz da escrivaninha
Donde meus dedos
Propunham que minha boca falasse besteiras
E o papel que era branco ficou colorido
Uma brincadeira de versos contidos
Era uma alucinação

E cá de dentro da poesia
Donde escrevo
Ela, minha companheira querida
nela,
arguta e astuta domadora de sonhos
que de lágrimas fez um rio risonho
Me refestelo primeiro.

Brás Cubas.

sábado, 9 de maio de 2015

De volta.



Luz dos meus olhos negros
retorna à casa da morada minha
minh'alma alarde
na fulgurosa batida falha
desce dos céus lua nata
desce descalça
te dou passagem e bravata
tateia meus silhos
traz de volta o brilho
dos olhos meus

Encanto dos festejos
rebeldia desvelada
prateleira embaralhada
louça suja
roupa lavada
amor de pirraça

Volta luz da minha voz
que ecoava a cada toque dos lábios teus
traz de volta o gosto febril
o céu anil
e a onda do mar que era mais azulada

Espelhos e lantejoulas
piruetas e ceroulas
pijamas e piratas

Volta pra meus abraços
Me prende em seus braços
Me rebento no cais

Volta para o meu jardim Margarida
Tua voz escorrida
Me parece fugidia
Eu quero te alcançar.

Brás Cubas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Retorno à pátria.




Adentro o vértice do ventre
Atabalhoado e cambaleando
Ando no arado dos sonhos
Pernalto e cabisbaixo
Ando andarilho
Ávido e parvo
Ácido e cálido
Tácito e tóxico
Reverbero o sincero patriarcado
Volta à terra minha
A pátria das sombrinhas
E do sol faustoso
O céu me faz alvoroço à chegada
na porta da fronteira da minha alma.

Brás Cubas.



terça-feira, 5 de maio de 2015

Insólito




Sigo insólito na pedreira amiga
Sou a nau da onda ribeirinha
Sigo o imbróglio nas mãos da peregrina
Sigo inglório na prece da menina
Sigo o latido dos arautos e da vitrina
Sigo as ondas sonoras da guitarra espanhola
A sanha da minha ira
E eu iria num salto cruzar a ponte
E eu ia voar alto pelo horizonte

Sigo pelas sílabas fálicas por minha boca fabricadas
Sigo pelos versos de cada esquina
Sigo no esvoaçado céu cintilante e nublado
Sigo Pero Vaz de Caminha
Sigo com sinhás e perolazinhas
Sigo na coxia do teatro
O sinal do último ato
Tristão e Isolda viriam e ririam

Sigo tão somente passos passados
Verso e prosa da minha mente canina
Sigo o vidrilho
O estribilho da voz pequenininha
Sigo mesmo assim vadio assim de mim mesmo achado e perdido

Sigo em retas sem curvas
Em ruas vazias
O silêncio é meu amigo
Em horas desvalidas
E transo minha mente em uma sadia coxalgia
Nevralgia d'alma minha
E eu que de repente me sigo
Minha própria sombra amiga.

Brás Cubas.







domingo, 3 de maio de 2015

Uma verdadeira correria




Ei-lo: - o solilóquio ali posto na vitrine.
Ei-lo: - o circunlóquio ali exposto no rosto.
Ei-lo: - o exotérico em cada palma da mão.
Ei-lo: - e ai de ti quando nascemos irmãos.
Ei-las: - a rebeldia e a sabedoria.
Ei-lo: - o peremptório mundo do avesso.
Ei-lo: - o provisório voo da alegria.
Ei-la: - a procacidade do preço.
Ei-lo: - o halo da cidade.
Ei-lo: - o desejo.
A cidade arde em disritmia.
São tantos e tantos anseios.
Uma verdadeira correria.

Brás Cubas.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Aguarrás

Jef Aerosol




Alguma coisa já bate em descompasso em meu peito
Eu, banido na imensidão do leito
Insumo da marginalização
Algum pedaço de aço me faz artimanha
No passo ligeiro da lembrança
Alguma coisa já me falta um pedaço
Alguma coisa que fica nos meus passos
Acho que algo estranhamente me estranha
Eu que sinto falta dum ato
Encontrei-me aqui calado
De fronte à papéis perdidos
Uns ligeiros
Outros tropeiros
Outros em brancos
Todos pedindo
Letras e alfabetos
Verbetes reversos
O controverso amigo
Eu, partindo da casa de palha
Andei de sandálias
Pelo descaminho
Alguma coisa já me fortalece mais do que tudo
Algo de alguma leitura que me deixou mudo
Quando meu peito explodia em volúpia
Era um jogo de culpas
Uma pessoa desnuda
Era uma vontade de rua
Aguarrás
Era uma mulher nua e desvairada
Era um copo de leite
No estômago, o azeite das Oliveiras da paz.

Brás Cubas.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A belezura

Cálida e ávida de alusão
A belezura náutica e rasteira
Dum céu de Olimpo
E que haja raio e trovões

Essa belezura me acalma o rio manto
Acalanto do pranto esgotado
Lágrimas sem sentido
Era um preâmbulo no desconhecido

A belezura passa rasteira
Sobretudo e de sobressalto
Sobre a visão alheia

Hei que vos falo da imensidão
Dos arautos e do taralho
Sobre o que é a belezura na mansidão

Belezura meu amigo
É gozar da vida e sorrir
Belezura é viver o que se vive

A belezura é o que há
E há de haver beleza
Numa era de poesia
Numa esfera da boemia

Sorte e mais sorte belezura
Sorte tua
Que me bates a porta toda noite

Arde em chama o palácio da taciturna ilusão
Chama amiga dos braseiros e da exatidão
Alma minha do passarinhado
Muitos cantores de romances e um homem que se diz são

É a beleza da belezura
que revigora na certeza de que o sol brilhará
E não há equação
de que quando a lua chegar
Um bocado de estralas vai brilhar
Na belezura duma canção.

Brás Cubas.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Live a little dream




Live a little dream
Even if the dream meant to be passing by the road
Knocking your door for a little dream
Just a little dream
Kiss me tenderly, with a little dream
Even if your heart has been spread on pieces
I've crossed the ocean of our emotions
I've bended my knees for devotion
On my little dream
I do intend to live my little dream
Live a little dream
If that is, possibly, a dream
Perhaps the only flower in my garden
This little dream it was cultivated to be admired on my little dream
And I live a little dream
Singing with healing
I left my tears on the rain
I could not fake them
I grew up insane
So on my little dream
Just breath and live a little dream
Simply take some sleep, because on the dreams all is valuable
A constellation of involuntaries stars
My star shines to me on my little dream
The heaven belongs to me
Live a little dream
Even a short one
Even thus, only a song to be.

Lor Byron.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A língua da idendificação

катерина воробьева



Eu no paralelo mediano da sua língua
Identifico-me na minha
Foco no foco
Asso no aço
Corro no passo
Sofro que ardo
Queimo e calo
Salto alto
Meu céu
Meu amigo.

Brás Cubas.

Fui sonhar

Escultor Rodin

Cansado dos meus tímpanos vazios
Do martelo que martela no meu Externo
E o ouvido  Médio
Parece que me bate a porta todo o oriente médio
Que remédio?
E que astúcia essa minha insana babaquice
Eu que lia outrora
Só quero cachaça de alambique agora
A chuva que cai dentro de mim agora
Nem muitas lágrimas hão de me acompanhar
Quero ouvir o silêncio dos maestros magistrais
Na minha louca surdez
Escuto alguém batendo na porta
Chegou a hora
É a felicidade que veio me ninar
Que nada, era só um sonho bisonho
Não apareceu ninguém para me acompanhar
Tomei um comprimido e fui sonhar.

Brás Cubas.


domingo, 12 de abril de 2015

A língua da cobra em as vinte línguas

Jef Aerosol.


Disse à lua sobre a noite de prata
Com sua pele lambida e repleta de viscosidade
Disse com a língua repartida duma jiboia
Era uma hora de recantos
Lhe cobriram de mantos e panos largados
Deu um beijo de salamandra na suçuarana
Veio no voo da ariranha
nas galhadas das aves gralhadas
e retratos gravados nos símbolos Dionisíacos
Que cousa o beijo da cobra
Pareceu-me em uma hora em que eu fazia a obra
De alguma alma e uma gargalhada
Ferina e felina a mulher do Sarraceno
Fora a hora da hora minha
Num rabiscado e trançado de mil horas
Era um beijo que não passava
Irdes e fades a suntuosa memória
No velório dos perdões
A mão amiga que beijou-lhe por horas
A mesma mão que lhe bateu a porta na hora do gozo
Eu que nem ouso ser teu cais
Quem me dera por horas desembrulhar estórias
Num falatório da desordem humana
E do ronronar da piedade
Intrínseca felicidade
Que esta no não de tudo lembrar
Uma lobotomia das mágoas
É melhor que sossegar
Estar em paz com o beijo da cobra
É tomar veneno e caminhar.

Brás Cubas.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Solidão

Eu? quem fostes tu?
Eu, tu que me persegue pelas noites insólitas
Pelas marcas das próprias marcas da claridade
Tu que era minha companheira fiel
Tu solidão
Até tu puta bastarda há de me abandonar na solidão dos teus sonhos?
Tu solidão minha pedra calcada
Tu solidão desalmada
Tu solidão do meu dormir
Tu solidão a me sorrir entre as faces
Tu que virastes miragem
Tu que era realidade
Tu que me viraste na poeira da ilusão
Tu solidão que não me levou contigo
Me deixando na beira do rio de uma infância
O berço da minha arrogância
Tive de beberdes todos os cálices
Tu solidão que te fizestes amiga
Agora me vira tuas costas bandida
Dá de ombro e me vê em migalhas
Tu solidão tão pequenina
Crescestes me abrindo a ferida
E alguma coisa lida
Ali jogada no canto do meu quarto
Tu algema das minhas glórias
Comigo não caminhas agora que sou sombra e solidão.

Brás Cubas.

domingo, 5 de abril de 2015

The glory mandatory

Singing whilst the time was riding the Trojan horse
My lady has had laid down her head on my tired shoulder
We, the time and I, could have heard her sighs and cries
My queen from my delightful kingdom

My owl, my soul and my point of view
My world from the time upon the time
My all, and I could have it all
Whenever glory has been printed on my castle's wall

Throughout my way: - I could climb the high mountains!
And let the snow melt a smile addressed to me on a silly drawing
I could have sent the whole troop just to pick up her dress
And so, I leave behind the mandatory obligations

I flew upon the thunder and I hold the storm calm
Thus, my path ain't becomes her ache
Her Greek God has blessed us
So on and on
we fly

Lord Byron and a co-author.


sábado, 4 de abril de 2015

Exílio indigno




Estive prestes a me caber em um rio dos meus preconceitos e açoites
estive na boca do abismo da noite
estive tão perto dos nossos sonhos tacanhos
ludibriadas frustrações
e permissivo masoquismo
estive sempre nos dentes do lobo
com ele comi parte de minha carne
estive com fome de arte
estive perto da falsa inspiração
desilusória encarnação
dos infratores gozos que me corroem o corpo
o esqueleto e o fêmur
me exilei no teu peito
nele escutei algo que parecia um coração
esqueci de que tua mente é somente feita de feno
e tua alma é teu próprio alçapão
que tolo fui eu que quis fazerdes canção em minha história
que permanecesses em minha cama por horas
na ilusão de algum pertencimento
nem corpo, nem alma e nem tua carne me foram vendidas
ainda assim te beijei como fordes uma margarida
como se pudesse de teu material humano
fazer a beleza da natureza de um jardim
não obstante uma outra mão ambulante
uma câimbra suculenta vem me tomando os poros
já perdi as lágrimas derramadas no lençóis dos meus olhos
e você me veio outrora
me fechando as artérias
debruçado na guerra dos insólitos
e o veneno vencido
de validade prática
me pôs rendido aos meus próprios pés
a doce ilusão taciturna
fez-se diurna para que eu dormisse lentamente
eu soube no arrebol do teu assovio
teu riso de menino
que era um rio
era eu que já estava indo porta a fora
fora da realidade e da vida
fora de qualquer esbórnia exumada
e a meretriz me sorriu como quem tira um bandido para dançar a última valsa
minha língua trapeira
e sua mente ligeira
fabricaram algo não nominável
era de sorte para um ditado popular corriqueiro
o que passa pela vida ligeiro
não pode ser chamado de amor.

Brás Cubas.






quarta-feira, 1 de abril de 2015

Malditas horas

bem vos diga essas tuas horas malditas sedentas da língua amiga
que ordem me destes para que eu faça o teu caixão
insumo de vermes fétidos e delícias terrenas
que horas fúnebres abrangem as ondas do litoral
que estilhaço de lume faz brilhar o estrume
doutras esferas banais
que cimeira faz-me rir de rolar essa tua ribanceira carnal
que desejo animal seu é essa minha volúpia que contigo dorme
em sonhos de tal qual é a sorte dum animal.

Brás Cubas.

quarta-feira, 25 de março de 2015

A língua do demônio

Dirão dessa língua que é feita a Ciência
Outros dirão da boca do homem
Dirão da poesia sai o noturno rouxinol
São essas parábolas antigas
São esses atos falhos
Palavras que não são minhas
Dum vocábulo que mete medo
Que mete aço na parede da sala
Dum lugar que nem eu sei
Do quadro perfurado
A arte enquadrada na lei.

Brás Cubas.

sábado, 21 de março de 2015

Tapumes



Larga mão desse estrume
Derruba logo e depressa esse tapume
Esse brilho arraigado nos teus olhos estrelares
Deixa de lado essas imbecilidades
E teu frívolo lustre

Abre o código das estrelares galáxias
Essa química que no infarte renasce
Cresce sua verve e late
Deixa teu cachorro sem corrente correr no matagal verde

Abre essa joça de coração maltrapilho
Assina com nanquim esse ladrilho
Eu já me revi no retrovisor
Um expresso Oriente já por aqui passou
Um equinócio me falou de tua casta

Chuta esse tapume e brilha vaga-lume!

Brás Cubas.

Couraça



Ando vadiando a este bordo
Nessa tua boca cheia de lábios e sorrisos
Ando rodopiando meus dedos naquela tua viola
Ando me embolando em versos e prosa
Ando com a couraça a mostra
Ando com a nave na mente
Ando pensando em adquirir uma sogra
Ando com meia dúzia de farrapos
Ando com a tropa
Tenho andado naquela lua que sob o céu alumia outrora
Ando buscando para teu dedo um anel
Ando sonhando com teus pés perfeitos
Ando derramado nos teus defeitos
Ando de gatinho
Engatinho como quem se prepara para ser amado
Ando na contramão do sobressalto
Ando na mão inglesa
Veja bem espero que teu coração, em páginas desse livro, nosso amor reveja.

Brás Cubas.




sexta-feira, 20 de março de 2015

O livro das sinestesias



Era eu o teu sentido de vida
Eram tuas mãos e dedos sobre meu peito de chumbo
Era tua tarde e a Primavera de Margaridas florais
Era eu o teu reino de credos matinais
Era tua língua malévola
Era eu a tua taberna
Era eu o teu paspalho
Era eu com aço, alho e bugalhos
Eram migalhas de dor
Era o clamor do calhorda
Era a essência da cor
Era tua cretinice que murmurava conselhos
Era tua parva chacota
Era tua irrisória vitória Nagô
Eram os tempos lambendo o vento do porvir
Era tua mente tacanha
Eram seus gestos medonhos
Era tua entranha que vinha ao meu falo
Era eu dentro de ti
Era o que sentia o sambaqui
Era tua mente torpe e quadrada
Era tua presteza
Era num tempo de comer à mesa

II


Com a língua posta entre os dentes
Era um tempo de carne fresca
E madeira nova
Era um tempo do luar
Era um tempo de patifarias
Era um tempo de banho d'água fria
Minh'alma ria
Sombria
Era tudo passado no tempo presente
Era você no espelho
Era você o conselheiro
Era tua morte diplomática
Era tudo e era nada
Era ainda tua cabeceira falante
Eram meus pelos horripilantes
Sob a indulgência de tua língua esguia
Era tua boca nervosa
Teus dentes e esqueleto
Era eu o teu desassossego
Eram teus gemidos marginais
Era um bando de animais
Era uma sensação líquida
Era vívida àquela mórbida finitude
Era tua música que me acariciava os ouvidos moucos
Era devagar mais um pouco a chegada àquelas ilhas tuas
Teus interiores me solicitam
Era eu adentro
Era o meu coração na tua veia
Meu sangue batido
Minha voz sorria
Me corriam vermelhos e excrementos
Eram pétalas de flores nos ares
Eram cheiros dos arades
Eram frutas frescas
E folhas secas
Era o chá das cinco
Era uma e meia
Era minha pele tecendo artimanhas
Era o meu suspiro
Era tua Babel in vitro
Era inócuo
Era Protestante
O dinheiro restante

III


Era o resto de tudo
Era minha saliva nos teus beiços
Era um nego falante
Era um ar respirante
Era uma sinestesia
Eram meus dentes que sorriam
Eram teus mamilos sanguessugas
Eram tuas pátrias absurdas
Eram festejos
Era de tudo um pouco
E nada disso tudo
A vida vertia na minha cova
Era a sorte da esbórnia
E qualquer solução
Eram as tuas engabelações
Lições de criança
Era o cabedal
Era o paradigma dos Astecas
Eram as milhares de Marrecas
E eram os Flamingos dançantes
Eu lhes tocava as pernas
Eu vos amava de certa maneira
Eu cantá-lo-ei
Nós amamo-lo
O verborrágico passado de Hera
E a era Perestroika
Leiamos Trotsky
E Florbela
Era uma outra era
Uma coube numa
Doutra esfera
Tudo era
Era eu que dormia no teu ombro brejeiro
Era ligeiro o último verbeto
E eu corria com a sílaba anátema
Quererdes tu um sapopemba
Ides tu a era dos falidos
Vedes teus martírios do harém
Era um harém além do além
E flores fúnebres lhe cobriam o rosto putrefato
Mordiscado por formigas abelhas
Amigas da rainha
que tu eras.

Brás Cubas.