quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Veneno estricnina

Maltrapilha a corrente da estricnina
verte a língua mãe do demônio
Ela que deveras proferir o putrefacto sonho
Fez-se inocente à própria sentença

Jorra moralismo barato de sua boca sedenta
Que cativa jardins de pérolas negras

Roga pela salvação d'alma alheia
Chorando ao vento pelo torpe clamor de deuses

Impetuosa em sua certezas
a imagem do vestido manchado de sangue
a virtude dirimida na ponta das agulhas
à margem de algum consolo distante

Era tudo carne e muitos cortes
corte do pensamento
uma virose de tormentos

Uma mente vadia
Essa vaca deu cria
seu bezerro voou como um cavalo alado

Era uma pestilência do caralho
sua viagem uma ilha
sua ilha era seu próprio naufrágio
sua palavra a própria forca
cadafalso silábico
fecho o bico língua sabida
que na cabeça manda o homem que tem firulas
bode com chifre
unicórnio da rua

E que diabos...
Tudo parece fechado em conceitos da maldita língua

Oxalá queira que se perdoe a criação, o criado e a criatura
língua, a língua, essa sua língua, língua e muita saliva

Maltrapilha na janela dos olhos
no sangue pisado
do dedo esmagado
pensamento cáustico
puro veneno
veneno da vida
morte súbita
mordida nessa tua insana língua

E caem ao vento suas palavras já mortas
nessa tua visão
o sardento cão já nos lambeu a ferida
salve a língua do cão
decepem a língua maldita
não deixem que os donos dessas línguas as mordam
deixem esse trabalho na bandeja do prato prateado
brilhando com sangue veneno
veneno estricnina

Brás Cubas.

Arte Barbara Bezina Art