quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Egocentrismo


Egocentrismo.

Entro de soslaio na solidão coletiva
Entro porta adentro
Com pernas e membros
Eu que não sou o centro
Entro por todos os lados
Entro na multidão
Alcovitando a calmaria
Entro nos teus braços
Assim como quem em alfa entra
Entro na travessia.

Sou o rio que deságua
A ponte construída
Sou o sono que te embala
Sou o sonho sonhado
O beijo do amado
Quando passa a romaria

Entro por entre os laços
Dos afetos perdidos
Volto a ser menino
Quando te acho
Entro casa adentro
Pra tomar o teu café pequeno
E ler versos milimétricos
E decassílabos também os cavo

Entro noite afora
Lua nova
Entro na leitura dos teus lábios
Entro de mansinho
Sou a raiz da planta do seu vaso predileto
Entro e me revelo
Faço que o fato seja consumado
Te consumindo as entranhas
Neste belo calhamaço.

Brás Cubas.

Proliferar

Proliferar.

Esmago o choro da noite perdida
Nela espalho o pranto
Ao relento canto e amo
Sou prole
Sou réu do teu pincel

Me refestelo
Me refaço
Me entrego
À festa da vida

Esmago as mágoas
Estrangulo o soluço
Com estranheza pulo
As ondas do amar.

Brás Cubas.

Angústia


Angústia

Falo em primeira pessoa
A segunda em minh'alma já não ecoa
Como deveras replicar
Falo farto do fato

Falo alto
Pra muita gente te amar
Falo tudo de que não sei
Mesmo assim hei de sonhar!

Falo mesmo assim
Dos devaneios em mim
Da síncope sagrada
Da cadela marginal
Do homem comum
E de todos no sul.

Falo em primeira pessoa
Pois a quarta estrofe já revoa
As cabeças da gente ribeira
Eu que como pelas beiras
Falo em primeira pessoa.

Brás Cubas.

Divinal

Divinal.


Ardo quando queima a palha seca
Quando a seca chega no sertão
Pulo a fogueira
Viva São Pedro e São João.

Jogo bola de gude na terra seca
Que seca tudo
Tudo já secou

O rio que por aqui passava
O rio que por aqui passou
Já não passa mais
Mas passava passando
E o tempo secou.

Brás Cubas.

Louros d'ouros


Louros d'ouros


Eu que estou atento
Busco alento
Eu que estou na Glória
Busco acalento
Eu que estou em busca
Encontro

Eu que sou o rio
Busco a água
Eu que sou o frio
E a boca que amarga
Eu que sou o fel
Já experimentei do mel
Do amor.

Brás Cubas.

Epígrafo

Epígrafo

Meu ego me chama
Na chama da cama
Meu ego te ama
Quando proclamas

Meu ego se ergue
Eu sou o que segue
No próximo verso

Estranhamente boquiaberto
O sorriso sincero
O gozo último
O filho único

[E meu ego segue...]

Brás Cubas.

Poema de sabotagem

Poema de sabotagem.


Eu quisera falar
Eu pudera falar
Eu falaria do mar
Se amar fosse cantar

Eu sonhara teu sonho
Eu velaria teu sono
Para te ninar

Eu sabia de nada
A noite meus amigos
É sagrada
E a solidão resguarda
O pobre coração.

Brás Cubas.

Condição de poeta

Condição de poeta.


Eu tinha uma memória
Ela de mim se perdeu
Esvaiu-se em água
Era o rio que me acalmava
Ele também partiu

Entre as águas desse rio
A memória sorri
Eu que tinha uma memória
Sabia contar estórias para o povo rir

Eu que tinha tudo
Vi meu mundo ruir ao som do descompasso
O compasso já não tracejava o traço
Das retas de qualquer emoção.

Brás Cubas.


Jacutinga

Jacutinga


Eu que ricochetei-o
Eu que peço conselho
Eu que dou lambada no lombo do romeiro
Meu verso cantará

Eu que me embolo
No bolo da noiva
No vapor da coifa
Meu verso cantará

Eu que me dedico ao espaço
Me perdi nos teus passos
Quanto queria te guiar
E quando menos esperes
Meu verso cantará.

Brás Cubas.

Premissas inéditas

Premissas inéditas


Eu que sonhara
Talvez acordara
Querendo amar

Eu que falara
Talvez espreitara
O discursar

Eu que deveras
Busquei mil quimeras
Para voar

Eu que sumira
Voltara na ira
Dos homens do mar.

Brás Cubas.