domingo, 2 de novembro de 2014

Guardas

Guarda a noite
Aguarda o assalto
Figura a figura
Guarda a sombra

Esconde o sol no pote
Guarda o sorriso
A vida vadia
Que ia
Junto comigo mesmo

Eu ria e eu ia e ia e ia

Guarda-sóis
Afastam-me da sombra
Aparelhem-me às ondas

Eu ia e ia

Guardado na sombra
dos lençóis
que são amantes dos travesseiros

Guarda-me nos teus conselhos
Quebra minha alma no espelho
(já sinto o cheiro da pólvora do tiro certeiro)
E guarda meus pedacinhos
Na sua alma

Guardem as cobras e as sogras

Eu ia e ia

Guarda a curva do arco-íris
A luz que lampejou na sua íris

Guardem os guarda-chuvas
Guardem a loucura
Amiga da conduta boa
A onda que revoa
E quebra arrebentando na proa
Eu ia e ia no navio negreiro

Que os guardas guardem a cólera de outrora
Que os guardas-noturnos guardem as noites mais enluaradas
Que os guarda-roupas guardem peças de Baccarat
E que finalmente os guardas salvem a rainha de Sabá

Guardem os primeiros prêmios
Guardem de tudo um pouco o que lhes parecer certeiro
O beijo primeiro
O sinal do teatro
O primeiro ato
O passo a passo

Eu que hoje passo

E eu ia e ia e ria de tudo isso
É, eu era menino
Na cruzada do peregrino
Guardem espadas e fuzis
Guardem o sangue e os mísseis

Guardem todas as poesias para o dia do vosso cataclismo.

Brás Cubas.

Roberto Ferri.