terça-feira, 18 de novembro de 2014

Devaneio

Devaneio
Devaneio no passo a passo do lento passo passado do tempo
Devaneio por anseios de conselhos
Entrevejo o espelho e o biombo faceiro
Devaneio por minha amada poesia calada na ferida d'alma
Bebo o copo com a gota d'água já sôfrega
A lágrima da chuva discorre sobre o vento
Eu quisera mil alentos mais
Eu pudera mais escrever devaneios mil

Devaneio essa poesia fantasia
Que minha real ferida à lembrança me traz
Ao mar revolto
Ao porto
Ao balanço do cais
Devaneio poeticamente
Eu que esbravejo sou o mar que vai e vem
Eu que sou o mago do horóscopo
Uso qualquer lupa e vejo mais
Devaneio por amar a poesia
Ela que se revela
Ela que não se aprende
Não repreende e não se desfaz
Ergo em mim o devaneio para sonhar em paz
Brás Cubas.




A sabedoria do amor

É, toda hiena ri
É, todo amor é aprendiz
É, todo ódio parece real

É o homem é um animal
É o vento batendo em sua porta
É a lembrança já te alcança
A memória já lhe espanta
Com fotografias do passado
A realidade é um asco
E o amor farto já está farto
De doce ser
Você que queria ser
Acabou me querendo por querer.
Brás Cubas.


Boca

Teus lábios no meu
Tua boca é minha
Tua saliva na minha

Nosso beijo é trivial

Tua boca respira
Teu lânguido pulmão elimina
Tua voz que me alucina
Teu grito de dor
Teu gosto de amor
Teu mel da boca
Teu arcanjo no céu
Meu amor tu tens lábios de mel.

Brás Cubas.

O amor é uma coceira

Falemos de amor
daquele asneira
Que te dá até coceira

Debaixo dos braçosMesmo quando te abraçoNem cócegas sinto
Falemos do amor
Pintados nos quadros
Embutido e enlatado
Que já vem pronto requentado
Falemos do amor microondas
Que vibra na frequência das ondas
Das parabólicas bucólicas
Falemos do amor madrigal
Aquele que está estampado no jornal
Falemos de algum amor
Mas de amor falemos
Amor bicho carpinteiro
Que parece inteiro
Mesmo que dividido em pedaços
Falemos do amor carnaval
Da festa do animal
E do homem o desejo carnal
Falemos do amor grilo
Aquele que peleja no teu ouvido
Falemos do amor de mansinho
Para que dele possamos tirar todo o néctar
Falemos da selva
Da coceira na canela
Do amor ferida
E das feridas do amor.
Brás Cubas.


Aldeia do Tupi

A Aldeia do Tupi

Matou a sede do amor
na carne do freguês
O povo francês
Buscou em terra Brasilis
Firmar terra
A terra da tribo era
O amor era sem pecado
O amor era selvagem
Era bom
Era algo
O amor era puro
O amor não era a lavagem
Dos patrícios europeus
E a sífiles do plebeu
Beijou a boca do ateu

É meu amor amigo
O Tupinambá
Mandou caçar o amor
Amor meu
Pernas pra que te quero
Amor sublime por isso te espero.

Brás Cubas.


Todos tentamos

Todos tentamos
É preciso que o amor melhore
De cara
De roupagem

De formaÉ necessário que o amor crie coragemVoe nas asas da liberdadeOs joguinhos são menos necessáriosA mesquinharia que fique guardada no armário do passado
É necessário a leveza da beleza
O charme de algum romantismo
No abismo do amor rodamoinho
Que ele venha carma
Que ele venha calmo
Que ele seja grande
Que ele seja amor profundo.
Brás Cubas.

A arte de voar

A arte de voar

Voa tua andorinha
Voa voando alto no céu, aquele azul cintilante
Deitado de braços abertos perante as nuvens brancas do céu
Voa andorinha
Voa no céu
Voa voando 
Que o beija-flor é o pastor do mel
Voa minha poesia menina
Melindrosa e arteira
A poesia liquefaz
Artefato do ato
Que faz o sorriso sorrir
Bate na madeira
Deixa tua alma voar
Deixa tua voz cantar
Deixa a mente do homem brilhar
Deixa o pensamento navegar
Deixa eu cantar
Deixa eu voar
Deixa ele voar
Deixa o bem-te-vi e o Colibri
Deixa todos os pássaros passarem
Em bando voando
Em ordem e desordem
No balé natural
A poesia voa marginal
Deixa que o homem voe livre
Deixa que o louco ligue
E perca a razão
Deixa voar o vento na imensidão

Brás Cubas.

Me diz o que o carioca tem

Me diz o que o Carioca tem

Eles vêm do mar
Banham-se no mar
Eles são belos
Eu e os cariocas somos o elo

Do mais puro e singelo
Beijo salgado
O corpus suado
Da água do mar

O mar não se engana
Com o mar que a onda sacode
Nem baiano nem o carioca pode.

Brás Cubas.

O aval do artista

O aval do artista

Ele não me permitiu
Ele nas dunas sumiu
Fumando um cigarro
Deu mais de mil tragos
Eu que lhes trago
Essa fantasia em forma rítmica
Eu que danço com a bailarina
Eu que me afogo no teu ombro
Engulo o teu soluço e choro
Sou o vento que sopra no mar
Ele, o artista já não me quer cantar canções de ninar
Eu que sou ligeiro
Perdi o pincel
Vendi teu anel d'ouro

Minhas mãos correm por teu corpo
Meu sangue borbulha dentro do teu
Ai por deus chama a Amália
E a maresia
De braços dados com a poesia
Venha minha
Venha menina
Sou tua sina
Vamos badalar os sinos das igrejas góticas
Vamos derrubar com Derrida as retóricas
Vem viajar no meu mundo comigo juntinho
Assim como quando fazes beicinho
Te passo a mão pelos cabelos
Vou só te fazer carinho
Não te afastes de mim
Esse jazz que coloquei na vitrola 
E o vinho tinto na mesa
São oferta para sua poética beleza
Vem comigo
Lá pras bandas da Ponte de São Francisco.

Brás Cubas.

Edgar Degas.




A beleza do ser

A beleza do ser

Ser e ser mais e ir mais e mais ser
Estado de Espírito
Espirito Santo
Manto de Santo Gregório
O Gregoriano canto
Eu que remo te alevanto
Eu viajo o mundo em uma frase
Eu que crio o verso em silabada
Eu que te miro no meio da cara
Eu que sou quando fui
Já não sabia de nada
Eu que me escondo dos escombros
E da molhada chuva
Essa rima foi espuma
Já voou no ar
Eu quero mais é amar
Ser ou não ser
Eu quero mais é viver
E você que vem nesse trilho comigo
Batos palmas para você.

Brás Cubas.

Balança

Balança

Balanceia a onda do mar carrara
A pedra pérola arpão do mar
Joia rara
Eu que sonhara
Nós que pulamos
Da pedra da Gávea
Pra um voo internacional
Quero ver de Berlim seu periclitante carnaval
Eu quero nadar onde não haja o mar
Quero amar as pedras
E beijar as flores belas
Quero tua boca na minha
Sua coxa entre minha língua
E teu rosto fabricar
Não quero ser pornográfico
Isso em minha alma não veste o hábito
O Jorge Amado
Amado era
Vamos embora para a Bahia
Dançar no axé dos Orixás
Eu quero é mais
Dançar qualquer balé.

Brás Cubas.

Poema de figurinha

Poema de figurinha

Eu que tenho meu amigo
Eu, meu amigo, já te escuto
Da sua voz não fujo
No seu peito durmo
No seu âmago luto
No seu ego berro
No seu elo espero
No seu porto navego
Na sua âncora aporto
No seu rio atravesso
No seu travesseiro vocifero
No teu sonho te acordo
No teu beijo me molho
Na tua chuva corro
No teu coração penetro
Na tua alma me revelo
No teu espelho me quebro
No teu alvoroço piso firme
Por mais que eu te estime
Do poeta só a poesia se espera.

Brás Cubas.

Qualquer coisa

Qualquer coisa é linda quando raia o sol
Qualquer sorriso seu abre o horizonte
Qualquer coisa traz seu beijo 
Qualquer coisa ao seu jeito
Um bem querer me faz
Um bem querer me traz

Qualquer lugar é infinito quando te beijo
Qualquer face é tua na rua 
Mesmo quando não te vejo
Qualquer romance é o nosso
Qualquer passado logro
Qualquer estrela brilha


Brás Cubas.

O amor.

O amor

Procurei você em cada estrofe
Personifiquei cada palavra
Com discurso e espada
Para te encontrar você o meu amor

Amor cognata
Amor cognata
Amor que me mata
Amor.

Você era o amor
O amor era você
Nesse soneto de espera.

Eu fiz uma quimera
Para você sorrir
Volta para o mar
Volta a sorrir.

Brás Cubas.

Antonio Canova - Cupid and Psyche Standing 1796 - 1800


Era...

Era...

Era tua pele na minha boca
Minha palavra era tua alforria
Era o amor no corredor
Éramos nós que corríamos.

Era mais do que pudera ser
Era mais do que o infinito propusera
Era mais que eu quisera
Era mais do que devia de haver.

Era uma coisa tão forte
Não se chama de sorte
Paixão tão bonita.

Era eu mesmo no espelho
Só para olhar o rubor dos seus cabelos
Era eu mesmo.

Brás Cubas.


Arno Breker.

Você

Você

Era você que me afagava noutras horas
Era eu que te tomava nos meus braços
Nessas horas eu me fazia de astronauta
E voava pela sala de estar te contando bravatas.

Era você que me empunhava o punho em forma de aço
Para desdizer o estardalhaço
O grito do abrigo
Eu corria para os seus braços.

É você que me abre a porta
Quando chego daqui a meia hora
É você na sacada da maloca.

É meu coração pequenino
Cada vez que te olho viro menino
E meu sonho salta do limbo para o mar.

Brás Cubas.

A alça

Tamara De Lempicka - The Convalescent (1932)

A alça
Bela sobre o ombro despojado
retirada pela doce mão que eleva a visão ao seiotocada pelos dedos tocadores de pianosaiu dos traços das curvas uma valsaé pura luz seu olhar enfadonhoseu cabelo bisonho não avoava não havia brisa emérita no ar
vertigem do rosto saudade
pluralidade de rimas da cabeça ainda não saídas
sob a celulose exposta e à beira da mesa ainda não escritas
naveguei-te em outras horas naus
trafeguei um século todos os navios do atlântico sul
Eu revia minha linda amada saltitar em favas
Seu mamilo com cabelinhos em tremelique
Da pompa ao repique de tambores da floresta a ecoar
Era um sonho
Mas estava eu vestido com trajes de gente que anda acordada por aí nessas calçadas sujas
Sonâmbulo eu estava no preâmbulo de dizer eu te amo minha amada.


Para desvelar esse sonho de paisagem
Pico donde do norte que nos apontava
Eu ressonei bem alto
Brás Cubas.