sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Errata, um logradouro d'alma

Malogrado o faustoso arado d'alma
pendurado em recortes de paredes
sublinhando a premente distância do peito do pé
ao nó que é corda; cipó do coração
conglomerando a gente numa só paixão

Dor de doer como dor de dente
que isola a mente de muita gente
universo introspectivo
lá onde vivo: - minha casa de sabão

Peito aberto, ancoradouro d'alma
céu repleto de setas e direções
mil versos formam uma só canção
um só destino

Pé no chão
caminho de terra arada
o canto das Araras
eu que imaginara a congratulação

Nessa cordial batalha travada entre a vida e a morte do Pavão

Todavia a mão-de-obra dessa errata ( o logradouro d'alma minha )
é meu irmão
muitas pessoas têm o réquiem guardado no criado mudo
a gaveta sabe de tudo
todas as letras passaram da caneta tinteiro para as suas mãos
é lá na sepultura morada última de quem viveu
que morará a alma

Sois simulacro dos viajantes
sois comício mal jurado
em palavras de viajantes
descobridores de terra
adivinhadores de toda sorte
entre a vida e a morte
existe um corrimão


Corre para a sacada
a varanda está ensolarada
e os Canários Belgas te cantam uma outra versão
eu que queria te falar ao pé do ouvido teu
meus segredos de plebeu
queria habitar nesse teu logradouro
pousado ao lado do teu passado assim seria o pássaro o nosso passaporte para a imensidão.

Brás Cubas.

Eugène Delacroix. A morte de Sardanapalo.




O sol Guarani

O sol guariu
guarneceu
forneceu
e sumiu

O sol Guarani
o grito do Tupi
suciou
avoou
e desceu

Chuva taceira
d'água da mina d'ouro
corria a minha prurida fazendeira

O sol secou o sal do mar
o sol Guarani gritou
olvidou-se o eco
o alvo era certo
e a mata fechou

o cerco era tribal
a cobaia qualquer animal
e a tocaia canibal

Mexeram-se os dentes antropofágicos
Ai! Eu que como e mato!
fiz das tuas coxas meu santo altar

serração verde
coração mambembe
posto a cantar

O sol Guarani
Tupã fez arvorecer ali e acolá

O sol vem de lá
refestela-se sobre os montes
miragem para os amantes
e todos os passantes admirar

Astro rei da boia clara
Casal amancebado que não se casa
em nenhum altar
Mesmo assim...
o sol cedeu lugar à lua
pra dama da noite alumiar.

Brás Cubas.

Di Cavalcanti.

Eu não sei que flor é essa.

Eu não sei que flor é essa.

regada à seiva bruta
a flor resoluta
abre-se em sua tenacidade efêmera
que demora na retina uma centena e meia

o milênio da chuva curvou-se à bela flor
a minhoca da terra com seus dez corações escutou
minha voz fálica e dulcíssima
o pólen que do biquinho do beija-flor fluía

desmembrada a céu aberto
cada curva da planta se banhava ao sol da estação
cada pétala dava cor e vida ao ambiente
plantada ao pé de um poste de esquina

ela parecia calar os sentimentos mais humanos
o silêncio da não ignorância
a sobriedade da tolerância
e a beleza da puberdade ligeira

eu sei as flores não falam
mas quando as tomamos nas mãos
nossas mãos se enchem de cores
e eu sinto que flores são

eu e nós com nossas mãos embelezadas
a mão da noiva com o bouquet na entrada
o sino da igreja badalava
só o cheiro das flores penetrava

as narinas da gente enfileirada
posta à rima das flores
que em contrição me chamavam

flores minhas vinde à mão minha
vinde à palma
cerne da vida
sejamos mais flores
sejamos mais alforria.

Brás Cubas.

Adore Noir Magazine.