segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Amores vêm e vão

1-O desbravador.

Tu quem és?
Pede àquela que do mar vem
Tu que não me responde
Nem aos ecos do além
Mares além

Tu quem és dentro do meu ser?
Tu que fostes antes do amanhecer
Eu alvorecia no alvoroço indo no balanço do teu ser
Tu eras mais alegre na felicidade do sol a nascer

Tu que fostes embora
Não me voltes agora
Que já nem quero mais saber de mim
Quando tudo em ti enfim era enaltecer

Tu que me levastes contigo
Eu que quisera ser teu amigo
No melhor do prazer

Tu que me deixastes agora
Batestes a porta
E a janela de minha alma não quer arrefecer
Deixa o mar ir embora
Junto com o sol no horizonte
Deixe que o amor vá ao léu
Quereria desses teus lábios carmim
Os beijos de mel

Tu que me tomastes a vida nas mãos
Liberta a glória dessa nossa guerra canção
Tu, meu amor, já gritavas contido
Nos escombros da solidão
Tu desbravador de âmagos outrora
Já souberas a hora de partir

Desbrava a onda do imperador
Limpa o reino das baixelas do senhor
Arqueando minha alma singela
Te digo senhor desbravador
Que te escondas no limbo
Dele tire da boca o assovio
E liberta nosso amor.



2-A sonata.

Quem me indaga é a adaga no peito
A bela música no seu desfecho
É o raio de luz
É a sonata da cruz

Quem me embala na bela melodia
É a canção límpida
O sussurro lento
E o eterno aprendiz
O faz de conta sorri para mim
Eu que sou feliz

Quem me dera compor uma sonata
Esquecer a gastura de batalhas vis
Quem me dera ser o seu navegante
Ser o comandante seu, já que eu desaviei

Quem me dera pular no abismo
Correr perigo por uma meretriz
Eu que sonhara por um triz

Quem me dera acordar do sonho agora
O sonho que outrora
Te fez minha atriz

Quem me dera rolar no seu sonho
Teus cabelos castanhos
Seriam o meu chão

Quem me dera morar nesse teu coração
Quem me dera fazer dele canção
E morrer de rir

Quem me dera olhar as mil quimeras
Nos teus olhos minha Beatriz

Quem me dera ir sem partir
Voltar sem chegar
No teu mar navegar
E chorar por ti
Sorrir sem sorrir
E ao teu lado viver feliz.



3-O sabotador.

Tu sabotastes meus sonhos
Tu me livrastes desses mesmos sonhos
Tu me carregastes nas encostas
Tu que me virastes tuas vigaristas costas
Tu que do sonho só sabia beber no copo da realidade

O vinho já era teu amigo e entoava qualquer vivacidade

Tu que da cidade sabia toda as línguas
Tu que dos deuses queria tomar a sabedoria
Tu que nos delírios me amou de forma intensa
Tu que me trouxe de reviravolta à tormenta

Tu que fostes o garfo e o prato
Tu que em minha carne queima
Tu que és a brasa da lareira
O travesseiro do inverno
Tu que já conhecestes meu céu e meu inferno

Tu que subistes os montes e colinas
Tu que era tão grande e tão forte
Tu que sois cá no peito meu solidão e saudade
Te saúdo de forma parva
Tua pele pálida já me encantava na madrugada

Tua vida corria na minha
Tua tristeza era minha
Teu sorriso era meu
O sol nos banhava

A alma cantava
A tua na minha
A minha na tua.



4-As vísceras.

As minhas e as tuas se embolam
As nossas se enrolam
Voa minha mente
Que é a águia do teu pensar
Nesse nosso penar
Nosso amor é visceral
Nosso desejo é animal
Seja ele brutal
E que suas leis escapem do código penal

O nosso Tupinambá já as comeu
As leis e as vísceras do plebeu
O nosso amor calvinista
Já foi parar nas cuias minha amiga

Falemos das flores belas
Para que o cerimonial não seja na relva
Dos anseios dos desejos do que almejo quando vejo no sonho o beijo que dou no seio teu
Que carrego tua mama
Ainda faísco nas tuas entranhas
Ainda que nosso amor seja pudico
É, meu amigo, o amor é amigo de quem ama.



5-O pedreiro.

Olha meu amigo o amor já foi construído
Olha que a alvenaria já está pronta
Olha que o ciúme já te apronta
Olha que a magricela já te aponta
Olha que o mar dessa cidade sinaliza
Olha que a beleza desse nosso amor realiza:

Amores divinos
São amores perdidos
O amor do pedreiro
É construção no celeiro
O amor da obra está em construção
Perdeu algo
Perdeu seu espaço
Nessa embarcação
No veludo do coração
Vermelho é o sangue dessa nossa canção

Amor meu amigo
Tu que sois bandido traz de volta a minha ilusão
Amor faminto de samba-canção

Amor choroso
Vem com o sal do mar

Amor carinhoso
Deixa eu te amar

Amor pernicioso
Livra-me das peripécias
Os gregos da Grécia
Já falaram demais.



6-Natureza cantante.

Que ele levante
Que o homem sem medo traga o levante
Que a porta-bandeira
Isole na madeira
Bata na porta certeira
Que o amor brejeiro
Cante a beleza da natureza
Que o amor sem espelhos enxergue a gotícula
Que as suas ancas sejam minha cura perversa
Que os anjos te cantem aos ouvidos essa nossa conversa
Que sejamos alegria e festa
Que sejamos o polo norte e o cone sul
O amor que cante o azul
Sua natureza materializada
A natureza cantante
É também minha amante
Beijo-lhe os seios como quem quer soprar-lhe a alma
Que esse amor venha com calma
Que eu seja o que quer a salva de palmas
Da plateia desarvorada.



7-A despedida.

Vai embora meu amigo
Vai em boa hora amor banido do paraíso
Vai-te com tuas tralhas
O sol no telhado
Já secou a chuva na calha da casa nossa
Vai embora seu bandido
Que roubara tantos corações
Vai embora com a glória do que não houve não

Vai de mansinho com os lençóis
Da pescaria não sobrou nem os teus anzóis
Leva tuas tatuagens
Outras marcas deixastes no meu corpo
Leve embora a tua manha
E tua vã aristocracia
Que de manhã acendo uma vela
Para que os anjos da guarda te deem alforria.



8-Entrelinhas.

Eu era tudo que você queria
Eu era o papel assinado
A tua alforria
O amor libertário
Eu clamava aos céus no teu santuário
Eu te acariciava com sorrisos de nostalgia
Eu era tua pílula mágica
Eu era teu amante
O seu delírio delirante
Eu era o que você queria
Eu era tanto que de tanto ser
Te perdi num minuto lento de se ver
Eu te chamara para viver uma vida
De festa todo dia
Eu te amava
Como é banal dizer bom dia.



9-Novos ares.

Era você que já me chegava falando de mansinho
Era eu no teu peito me acostando para murmurar baixinho
Era você quietinho meu amor para comigo fazer um ninho
Era você que eu esperava toda Primavera
Era você na sala de espera

Era seu ar de saxofonista que já me inebriava
Era tua mão na minha
As duas mãos juntas passavam
As minhas no teu corpo
As tuas no corpo meu

Era a beleza do jardim no seu olhar
Quando te olhava de longe junto ao mar
Era a certeza desse nosso encontro que me fizera respirar
Era o suspiro que me trouxera alívio na hora de te amar.



10-A bravata.

Era o amor que te chamava na esquina menina
Era eu que te caçava fazendo bravata pequenina
Era a lua já acertando o sol no afã da manhã preterida

Era o forte que se trancava embolado em sentimentos
Era nosso momento de fomentos
Era nossa hora de voar mais alto
Era o amor cadafalso

Era nossa luta cotidiana
Era seu vestido de branco
Era o seu amado Indiano
Era eu cantando no banco

Era a pracinha repleta de gente desconhecida
Era a gente a correr perigo, sem temor, pelas esquinas
Era a juventude achada na palma da mão
Era um amor pé no chão
Que flutuava nas nuvens de Março
Era eu que te dava um trago
Era a fumaça da lembrança
Da maria-fumaça
Da memória póstuma do nosso passado.



11-O trovão.

Ele relampejou
Ele já sacramentou
Meu amor
Nossa vida no ninho se achegou de mansinho

Eu que saio nas pontas dos pés de fininho
Para não acordar teu sonho pequenino
O trovão trovejou
Balançou o céu
Era de puro cristal o nosso anel

O trovão jorrou uma aquarela
E o pincel bordou as palavras de sua linda melodia
Sua boca linda
Meus lábios nos seus
Ai! Por Deus
Nessas e em outras horas
Não queria ser ateu
Por acreditar em ti meu deus

O trovão levou nosso barco
Para o outro lado do porto
Fincou nosso caso
Te embolo nos lençóis
E peço a ti meu deus um carinho mais.



12-O cabrito.

O amor é o cabrito que mais berra
Berra alto
No meio do asfalto
No sol quente
No meio da gente

O amor faz onomatopeia na hora da festa
O amor é orgia e náusea
O amor é a fresta da sua janela

Todos nos berramos como cabritos
Agachados para beijar o amor
Todo homem ainda que por dentro
Pelo amor já chorou

O cabrito berra
O amor encerra
Na paz e na guerra
Meu cabrito vira bode
Um grita e o outro berra.



13-Todos tentamos.

É preciso que o amor melhore
De cara
De roupagem
De forma
É necessário que o amor crie coragem
Voe nas asas da liberdade
Os joguinhos  são menos necessários
A mesquinharia que fique guardada no armário do passado

É necessário a leveza da beleza
O charme de algum romantismo
No abismo do amor rodamoinho

Que ele venha carma
Que ele venha calmo
Que ele seja grande
Que ele seja amor profundo.



14-Aldeia do Tupi.

Matou a sede do amor
Na carne do freguês
O povo francês
Buscou em terra Brasil
Firmar terra
A terra da tribo era
O amor era sem pecado
O amor era selvagem
Era bom
Era algo
O amor era puro
O amor não era a lavagem
Dos patrícios europeus
E a sífilis do plebeu
Beijou a boca do ateu

É meu amor amigo
O Tupinambá
Mandou caçar o amor
Amor meu
Pernas para que te quero
Amor sublime por isso te espero.



15-O amor é uma coceira.

Falemos de amor
Daquele asneira
Que te dá até coceira
Debaixo dos braços
Mesmo quando te abraço
Nem cócegas sinto

Falemos do amor
Pintados nos quadros
Embutido e enlatado
Que já vem pronto requentado


Falemos do amor micro-ondas
Que vibra na frequência das ondas
Das parabólicas bucólicas

Falemos do amor madrigal
Aquele que está estampado no jornal
Falemos de algum amor
Mas de amor falemos

Amor bicho carpinteiro
Que parece inteiro
Mesmo que dividido em pedaços

Falemos do amor carnaval
Da festa do animal
E do homem o desejo carnal

Falemos do amor grilo
Aquele que peleja no teu ouvido

Falemos do amor de mansinho
Para que dele possamos tirar todo o néctar
Falemos da selva
Da coceira na canela
Do amor ferida
E das feridas do amor.




16-Boca.

Teus lábios no meu
Tua boca é minha
Tua saliva na minha
Nosso beijo é trivial


Tua boca respira
Teu lânguido pulmão elimina
Tua voz que me alucina
Teu grito de dor
Teu gosto de amor

Teu mel da boca
Teu arcanjo no céu
Meu amor tu tens lábios de mel.




17-A sabedoria do amor.

É, toda hiena ri
É, todo amor é aprendiz
É, todo ódio parece real
É, o homem é um animal
É o vento batendo em sua porta
É, a lembrança já te alcança
A memória já lhe espanta
Com fotografias do passado
A realidade é um asco
E o amor farto já está farto
De doce ser
Você que queria ser
Acabou me querendo por querer.




18-Negue.

Negue o amor e a relva
Negue que me beijastes
Negue que por milésimos me amastes
Negue e minta para o espelho
Olhe tua face e procure conselheiros
Negue toda a falsa ternura
Tuas palavras duras
Já não me entorpecem mais

Negue que planejastes na mente uma ferida
Eu para consigo planejei uma vida
É fechada para ti a porta do meu coração
E há tempos sicatrizada a ferida
Mas sigo teus passos
Porque tua mente vil
Teu jeito pequeno
Tirou-me o desdenho
E a vontade de aprender a ser diferente do que és.




19-O meu querer.

Quereria eu te desejar de forma intensa
Mas tua mente é tensa
E tudo quer dominar

Eu que sou o mar
Te carrego para todo lugar
Escapa de mim enquanto é tempo
Vai-te embora no vento
Já é teu tempo
Liberta-te
Vira-te
E abençõa
Faz da fresta de luz
Tua rua embriagadora

Vai para os braços do que consideras felicidade
Porque com as pedras que me deixastes já construo minha cidade.




20-Niilismo.

Já não quero nossas memórias
Já não escuto tua voz melosa
Que me falava de imprópérios
Teu coração já não faz parte dos meus mistérios
Já não te quero mais
Já não te quero mais
Já não te quero mais
Sois cicuta que não bebo
Não por receio
Mas por sabedoria
Sois veneno do qual possuo o antídoto
Tuas palavras quase sempre sopraram vazias
Meu coração aventureiro um dia dizia
Que amar-te era mais-valia.

Brás Cubas.














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