sábado, 1 de fevereiro de 2014

O livro das sinestesias

O livro das sinestesias.

Eu te sinto

É você que passa na minha mente
É seu perfume que me molha a boca
É sua boca que me lambe os beiços

É teu peito de mártir
É sim, nele que me aconselho
É nas tuas lutas que sinto gritos bravios
No cheiro de pólvora que remete à guerra
Onde tudo se encerra
É o começo do nosso romance
É o cheiro de terra molhada
Que não apaga esse estopim

O torpor vem em mim
É a tua pávida branca pele e seu revés
Sai de mim com tuas asas que te sinto em liberdade congênita
Sai de mim com a palavra cognata do gozo da pintura transgênica
Sai do teu instrumento o meu gozo repleto de canto
Quando vi a sua enluarada noite bebendo do meu sangue
Num cálice d'ouro

Vem com toda força da onda onde pensas saber nadar
Não te afogues em tuas próprias lágrimas com o sabor do sal do mar
Ensina-me a nadar no teu rio de galáxias
Vou contigo sem demora
Vou contigo embora
Vou largar a escola
Vou fazer de ti uma glória
Pra essa pena voar em sua pele meiga
Para esse palato falar alto e replicar seu perfume natural no meu nariz
Deixa que eu pinto uma aquarela
Deixe-me com o meu gênio
Eu da poesia só sou aprendiz.


O livro das sinestesias

Quem és?

Quem és tu que da altura e da doçura do beijo que me chama
De quem é essa voz que o povo todo proclama
No lamber dos ouvidos de quem pensa que ama

Quem és tu amante bravo e sarcástico céu
Em qual céu revoam as gaivotas sobre o teu doce beijo
Tu que serás festa no meu chapéu

Quem és tu que me embebedas no ventre da tua pátria
Pátria essa que desconheço de avesso
Terra natal tua
Onde me reconheço
Terras de outrem donde vens

Quem és tu que luta em liberdade pela prisão
Quem és tu beijo doce
Amor de noite
Eu que te toco uma sinfonia de estrelas
Vê em nós a beleza que também há nos outros

Quem és tu que na minha bagunça ligeira
Ela que corre e pula da trepadeira

Quem és tu que me afaga a pele quando bebe do meu leito
Quem és e por quais trilhas caminha em nuvens de algodão
Quando verso o revés no tato de uma nova canção

Sois vós inspiração minha
Sois vós parte da vida minha
Eu que nem te tocara nos sonhos
Beijei dos teus beijos mais sinceros
Já dormi em tuas notas musicais
Já me embalei no teu sono
Já te escutei na vitrola velha

Eu que sou o passado que te lambe a face
Eu que não conheço de ti a verdade
Eu que desse encontro quero mais é gozar
Qualquer coisa que traga o cheiro da flor felicidade

Sois vós poesia para mim
Enfim

Vem de braços abertos
Porque nos teus braços me quero

Sois vós um arco-íris cheio de cores
Sois vós o mistério por onde o canto se esconde
Sois vós?

Brás Cubas.

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