Guarda a noite
Aguarda o assalto
Figura a figura
Guarda a sombra
Esconde o sol no pote
Guarda o sorriso
A vida vadia
Que ia
Junto comigo mesmo
Eu ria e eu ia e ia e ia
Guarda-sóis
Afastam-me da sombra
Aparelhem-me às ondas
Eu ia e ia
Guardado na sombra
dos lençóis
que são amantes dos travesseiros
Guarda-me nos teus conselhos
Quebra minha alma no espelho
(já sinto o cheiro da pólvora do tiro certeiro)
E guarda meus pedacinhos
Na sua alma
Guardem as cobras e as sogras
Eu ia e ia
Guarda a curva do arco-íris
A luz que lampejou na sua íris
Guardem os guarda-chuvas
Guardem a loucura
Amiga da conduta boa
A onda que revoa
E quebra arrebentando na proa
Eu ia e ia no navio negreiro
Que os guardas guardem a cólera de outrora
Que os guardas-noturnos guardem as noites mais enluaradas
Que os guarda-roupas guardem peças de Baccarat
E que finalmente os guardas salvem a rainha de Sabá
Guardem os primeiros prêmios
Guardem de tudo um pouco o que lhes parecer certeiro
O beijo primeiro
O sinal do teatro
O primeiro ato
O passo a passo
Eu que hoje passo
E eu ia e ia e ria de tudo isso
É, eu era menino
Na cruzada do peregrino
Guardem espadas e fuzis
Guardem o sangue e os mísseis
Guardem todas as poesias para o dia do vosso cataclismo.
Brás Cubas.
Roberto Ferri.

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