quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O sonho e o poeta.

Eu, o sonho era maior
Eu não era do tamanho do sonho
mas o sonho velejava nas Begônias do caieiro
no sonho do poeta bisbilhoteiro

O sonho revirou-se em rictos da nave louca
trouxe à beira do abismo
e flertou de forma lépida com o aberto sorriso

Abortou a tristeza das entranhas minhas
e revitalizou a mímese das imaginárias linhas
do meu céu azul

Desse céu acertou o pássaro que rodeava a montanha
seu pico era longe
seu degelo era frio
seu tamanho sublime

vergueiros e peremptórios
os sonhos dos sismólogos
eu que de cisma besta
cavalguei em cima da besta
que besta sou eu que cismei em sonhar

sonhar
sonhar
sonhar

Eu, a casa dos sonhos vida minha
partiu das nuvens da minha cabeça
um sopro de plumas e borrifões d'água
que desciam pela garganta minha

Ah! Eu, o morador de mim mesmo
sem de mim saber todos os sonhos
quis enquanto poeta ser sonho e poesia
poesia e sonho

mas muito sonho digerido
muito fogo engolido
vira braseiro no assoalho

Eu, vértice da circunferência
ela ápice da eloquência
o leitor é quem manda freguês
ainda que a leitura do pergaminho
lhes valha de um suplemento burguês

Eu, serei eu sonho e poesia
liberdade e rebeldia
unidas
pegadinhas num sonho

Eu, esse sonho já foi-se embora
eu e vós que outrora
entoamos a balbúrdia dos escombros

É, o sonho sonhou
que o homem nascia
que a cabeça ia
que nós descíamos uma ladeira cheia de latrinas

na rua dos sonhos
os poetas sentados
tocaram uma trova
tacaram fogo nas caixolas
do povo que vociferava a aurora

Fui-me para o sono longo
sou poeta
sou puro sonho.

Brás Cubas.


The Dance- Marc Chagall















































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