sexta-feira, 20 de março de 2015

O livro das sinestesias



Era eu o teu sentido de vida
Eram tuas mãos e dedos sobre meu peito de chumbo
Era tua tarde e a Primavera de Margaridas florais
Era eu o teu reino de credos matinais
Era tua língua malévola
Era eu a tua taberna
Era eu o teu paspalho
Era eu com aço, alho e bugalhos
Eram migalhas de dor
Era o clamor do calhorda
Era a essência da cor
Era tua cretinice que murmurava conselhos
Era tua parva chacota
Era tua irrisória vitória Nagô
Eram os tempos lambendo o vento do porvir
Era tua mente tacanha
Eram seus gestos medonhos
Era tua entranha que vinha ao meu falo
Era eu dentro de ti
Era o que sentia o sambaqui
Era tua mente torpe e quadrada
Era tua presteza
Era num tempo de comer à mesa

II


Com a língua posta entre os dentes
Era um tempo de carne fresca
E madeira nova
Era um tempo do luar
Era um tempo de patifarias
Era um tempo de banho d'água fria
Minh'alma ria
Sombria
Era tudo passado no tempo presente
Era você no espelho
Era você o conselheiro
Era tua morte diplomática
Era tudo e era nada
Era ainda tua cabeceira falante
Eram meus pelos horripilantes
Sob a indulgência de tua língua esguia
Era tua boca nervosa
Teus dentes e esqueleto
Era eu o teu desassossego
Eram teus gemidos marginais
Era um bando de animais
Era uma sensação líquida
Era vívida àquela mórbida finitude
Era tua música que me acariciava os ouvidos moucos
Era devagar mais um pouco a chegada àquelas ilhas tuas
Teus interiores me solicitam
Era eu adentro
Era o meu coração na tua veia
Meu sangue batido
Minha voz sorria
Me corriam vermelhos e excrementos
Eram pétalas de flores nos ares
Eram cheiros dos arades
Eram frutas frescas
E folhas secas
Era o chá das cinco
Era uma e meia
Era minha pele tecendo artimanhas
Era o meu suspiro
Era tua Babel in vitro
Era inócuo
Era Protestante
O dinheiro restante

III


Era o resto de tudo
Era minha saliva nos teus beiços
Era um nego falante
Era um ar respirante
Era uma sinestesia
Eram meus dentes que sorriam
Eram teus mamilos sanguessugas
Eram tuas pátrias absurdas
Eram festejos
Era de tudo um pouco
E nada disso tudo
A vida vertia na minha cova
Era a sorte da esbórnia
E qualquer solução
Eram as tuas engabelações
Lições de criança
Era o cabedal
Era o paradigma dos Astecas
Eram as milhares de Marrecas
E eram os Flamingos dançantes
Eu lhes tocava as pernas
Eu vos amava de certa maneira
Eu cantá-lo-ei
Nós amamo-lo
O verborrágico passado de Hera
E a era Perestroika
Leiamos Trotsky
E Florbela
Era uma outra era
Uma coube numa
Doutra esfera
Tudo era
Era eu que dormia no teu ombro brejeiro
Era ligeiro o último verbeto
E eu corria com a sílaba anátema
Quererdes tu um sapopemba
Ides tu a era dos falidos
Vedes teus martírios do harém
Era um harém além do além
E flores fúnebres lhe cobriam o rosto putrefato
Mordiscado por formigas abelhas
Amigas da rainha
que tu eras.

Brás Cubas.







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