Estive prestes a me caber em um rio dos meus preconceitos e açoites
estive na boca do abismo da noite
estive tão perto dos nossos sonhos tacanhos
ludibriadas frustrações
e permissivo masoquismo
estive sempre nos dentes do lobo
com ele comi parte de minha carne
estive com fome de arte
estive perto da falsa inspiração
desilusória encarnação
dos infratores gozos que me corroem o corpo
o esqueleto e o fêmur
me exilei no teu peito
nele escutei algo que parecia um coração
esqueci de que tua mente é somente feita de feno
e tua alma é teu próprio alçapão
que tolo fui eu que quis fazerdes canção em minha história
que permanecesses em minha cama por horas
na ilusão de algum pertencimento
nem corpo, nem alma e nem tua carne me foram vendidas
ainda assim te beijei como fordes uma margarida
como se pudesse de teu material humano
fazer a beleza da natureza de um jardim
não obstante uma outra mão ambulante
uma câimbra suculenta vem me tomando os poros
já perdi as lágrimas derramadas no lençóis dos meus olhos
e você me veio outrora
me fechando as artérias
debruçado na guerra dos insólitos
e o veneno vencido
de validade prática
me pôs rendido aos meus próprios pés
a doce ilusão taciturna
fez-se diurna para que eu dormisse lentamente
eu soube no arrebol do teu assovio
teu riso de menino
que era um rio
era eu que já estava indo porta a fora
fora da realidade e da vida
fora de qualquer esbórnia exumada
e a meretriz me sorriu como quem tira um bandido para dançar a última valsa
minha língua trapeira
e sua mente ligeira
fabricaram algo não nominável
era de sorte para um ditado popular corriqueiro
o que passa pela vida ligeiro
não pode ser chamado de amor.
Brás Cubas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário