Mas que malícia saída da boca minha
Palavras minhas
Eu que vos falo
Saiam do meu estômago em sangue pisado
Eu que vos cuspo o veneno, ao vento, do pensamento das cabeças dos homens ilhados
Inda que o homem tenha seu corpo purulento pisoteado pela ferradura do cavalo
Maltrapilho e ferido
Seguimos eu e o cavalo no imaginário dos vigaristas vigários
Em sua reza premente
Eu de joelhos em seu rosário
O corsário do terno das Treze Aves Marias
Ave voa
Ave vida
Espirito líquido escorrido da boca nossa
Da Boca minha
Da Boca do Inferno
Eu que tanto vos quero palavras minhas
Que de minhas não saem de tão presas
Liberem esse rio represa d'água pororoca
Vai-te de mim e de mim rastejam cobras ilustres
E de peles viscosas
Como a língua da chusma
Eu sou o povo
Eu sou a poesia
A poesia é quase tudo quando não talha o nada
Porque nada é tão real quanto a ilusão da palavra que sai do peito de um pobre homem
Livre são sim as palavras
Posto que o voo é do tamanho da queda
Mas a palavra dita
Como a pedra atirada
É infalível e inevitável e irrefutável da queda estatelada
Palavras saem por ai a vagar noites e dias de sertões e mares do mundo
Palavras que quando proferidas, a mim não pertencem mais
São vossas
São de todos nós
( E eu que entrevejo )
O arreio do cavalo sobre o odre dos nobres favos
Eu que relampejo no céu dos purgatórios
Voo nas asas do abutre
Demagogo das fétidas carniças
Palavras são coágulos embutidos nos entraves das carroças
Eu que chafurdei na palhoça de outrora
Supera aferventar as sílabas acrobáticas
Dos poetas saltimbancos voadores
Eu convosco talhei palavras de finos e tristes amores.
Brás Cubas.
Caravaggio Conversione di San Paolo realizzata nel 1601
Palavras minhas
Eu que vos falo
Saiam do meu estômago em sangue pisado
Eu que vos cuspo o veneno, ao vento, do pensamento das cabeças dos homens ilhados
Inda que o homem tenha seu corpo purulento pisoteado pela ferradura do cavalo
Maltrapilho e ferido
Seguimos eu e o cavalo no imaginário dos vigaristas vigários
Em sua reza premente
Eu de joelhos em seu rosário
O corsário do terno das Treze Aves Marias
Ave voa
Ave vida
Espirito líquido escorrido da boca nossa
Da Boca minha
Da Boca do Inferno
Eu que tanto vos quero palavras minhas
Que de minhas não saem de tão presas
Liberem esse rio represa d'água pororoca
Vai-te de mim e de mim rastejam cobras ilustres
E de peles viscosas
Como a língua da chusma
Eu sou o povo
Eu sou a poesia
A poesia é quase tudo quando não talha o nada
Porque nada é tão real quanto a ilusão da palavra que sai do peito de um pobre homem
Livre são sim as palavras
Posto que o voo é do tamanho da queda
Mas a palavra dita
Como a pedra atirada
É infalível e inevitável e irrefutável da queda estatelada
Palavras saem por ai a vagar noites e dias de sertões e mares do mundo
Palavras que quando proferidas, a mim não pertencem mais
São vossas
São de todos nós
( E eu que entrevejo )
O arreio do cavalo sobre o odre dos nobres favos
Eu que relampejo no céu dos purgatórios
Voo nas asas do abutre
Demagogo das fétidas carniças
Palavras são coágulos embutidos nos entraves das carroças
Eu que chafurdei na palhoça de outrora
Supera aferventar as sílabas acrobáticas
Dos poetas saltimbancos voadores
Eu convosco talhei palavras de finos e tristes amores.
Brás Cubas.
Caravaggio Conversione di San Paolo realizzata nel 1601

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