Claudio Ferrari foto Adore Noir Magazine
eu, e ali jogado meu baú de memórias
eu, e aqui togado mais um gole na esbórnia
eu, e acolá meu Jaraguá em cócegas
eu, e já é hora de mais firulas ômegas
eu, e o permissivo tempo a passar
eu, e seu ponteiro lunar
eu, que em meia-hora ao meio-dia
eu, que iria por entre as rochas dançar
eu, que em verso em prosa quero ninar
eu, que persevero no sonho
eu, histrião e anfitrião d'alma neurastênica
eu, rebelião e comichão de vida alheia
eu, que piso no chão da tua aldeia
eu, imã e magneto
eu, reviravolta em manifesto
eu, aí que prolifero
eu, que escorrego no córrego do rio lágrima
eu, que exaspero no voo da águia
eu, que respiro fundo no trago do cigarro
eu, que sou no mundo um pedaço de farpa
eu, que de poeta me fiz serenata
eu, a poesia me quis hibernando a sonata
eu, soneto gregoriano e florim
eu, do bolso furado me fiz conto de rés por um Arlequim
eu, retrógado besouro duma árvore pintada à nanquim
eu, periquitinho e passarinho vou de passinho em passinho ao clarim
eu, entre perdidos e achados fui encontrado assim
eu, jogado às traças do teu guarda-roupa cheio de cetim
eu, bicho-da-seda fiz perolar o vil
eu, que de nenhuma certeza tirei duma reta a estrela do céu de anil
eu, que da ufanista beleza espremi o sumo do teu navio
eu, que naveguei em cargueiros e cheguei aqui
eu, que da infinita aura te elevei ao Himalaia
eu, que noutrora revivi a aurora
eu, que de memória fiz uma pernóstica túnica
eu, que te via como uma coisa minha única
inimaginável nau e corte e súdita
palpável lisura do sonho agrura
coração em apuros
desejo único
saudade linda.
Brás Cubas.

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