quarta-feira, 22 de maio de 2013

Para falar de poesia

1-Para falar de São Paulo.
Na relva,
na selva de pedra,
na Cidade
Luz
e Liberdade.
Na relva,
uma cela.
Aquela vela,
uma luz
pela janela
saía e fazia
o olho dançar.
Na relva,
na selva
de pedra,
eu vi o vento soprar.
Eu vi a chuva cair
pro Rio desaguar.
Na relva,
na mata Atlântica,
no Rio,
na Floresta da Tijuca,
na encosta do morro,
no palafita solto no ar.
Na arquitetura concavidade:
a catedral do Distrito Federal
na modernidade.
Na relva,
na selva,
no que restou dela,
na natureza,
no parque,
em Praga.
No vinho,
o pensamento redemoinho,
embriagado,
hispânico.
No Vaticano,
o santo.
Na relva,
na selva,
em sampa,
na cidade de pedra,
eu vi um pouco de tudo
e de tudo um pouco.
O melhor de tudo
e o pior de tudo.
Na relva,
na selva,
eu vi brilhar o seu olhar.
Vi na Imigrantes
o sorriso
Dos migrantes:
emigrantes
imigrantes
iminentes
indulgentes
argonautas do futuro.
Na cidade de São Paulo
que guarda muito d'outras
em suas esquinas
em suas proas.



2-As flores.
As flores são mórbidas!
Esquálidas!
Algumas pétalas
até são pálidas,
algumas Girassol.
Assim amarelo ovo
a cor do ouro
da bandeira
da pátria!
As flores são mórbidas
e lindamente pueris.
Ah! sim, aquele cintilante
o azul cor de anil.
As flores são lindas
morbidamente lindas.
As flores são exuberantes,
no ranger da cama dos amantes,
nascem delicadas
e murcham.
Algumas são cor de rosa,
a mesma cor
das tetas das vacas
que comem capim.
O verde do caule das flores,
o caule da Rosa tem espinho,
o da Margarida é fininho,
o da Trepadeira
mas que besteira,
o da Dormideira
quase que não existe.
Há nas flores uma beleza
que é de certo delas própias,
uma paisagem
a viagem
para uma fortaleza.
As flores são mórbidas!
São frágies e fortes.
As flores trazem
à lembrança
seu perfume,
o homem que se acostume
pois as flores
não morrem
pois não merecem.
Se esconde a Orquídea
por entre outras flores:
as flores do jardim
verdadeiramente não morrem,
as flores Jasmim
perenecem e perenascem. ( Neologismo )



3-As pernas.
As pernas que perambulam...
Atravessam
O sinal da cidade
As pernas perambulantes
São um par
Um casal de amantes
As pernas meia-calça
Na cor de sangue
Transvaloração
As pernas coração
As pernas do
Nosso romance
As pernas perambulam
As pernas ambulantes
As pernas cruzadas
No passo do ballet
As pernas dançarinas
As pernas bizarras
Magrinhas
Pernas cabeludas
Pernas robustas
As pernas lânguidas
Essas e as outras perambulam
As pernas periclitantes
As pernas dos amantes
As pernas do tango
As pernas do mambo
As pernas correria
As pernas descem
E sobem
A escadaria
Da Igreja
No pulsar da romaria
As penas flutuantes
As pernas Chagall
As pernas do desejo animal
As pernas das enfermeiras
Ai, que cousa!
O saiote que cobre
As pernas das freiras
As pernas grossas
As pernas tortas
A perna minha
A perna nossa
A perna mecânica
Pernas postas
Posição de mantra
As pernas do gato pardo
O caniço do gado
As pernas animalescas
As pernas gigantescas
As pernas Tarsila
As pernas Carnaval
Do Amaral.



4-A face.
A faceta centelha
A centelha vermelha
Que levanta a sobrancelha
A faceta brejeira
A face faceira
A face
A miragem perfeita
A face aceita
A face gorjeia
A cena permeia
A face semeia
A face transita
A face mímica
A face do palhaço
O riso estardalhaço
A faceta centelha
Mil facetas
Gotículas de chuva na telha
A face que passe
Por mil prateleiras
A face da visagem
A face far niente
A face vidente
A face inocência
A face da coerência
A face existência
Imprime na face
de toda a gente
Veemência.



5-O café.
O café do Barão
O café varão
O café da Bahia
O café escravidão
O café coração
O café Castro Alves
O café d'alma
O café acelera
Com leite e açúcar
Aquece a sala
O café vapor
O vapor do café
A maria-fumaça
Que leva o café
Do norte a sul
Do Brasil
O café forte
O café sorte
O café dote
Arroba
Açoita
O café grão
O café socado
no pilão
O café moído
O café Capuccino
O café de hoje
É o mesmo café
O café da fé de ontem.





6-A mão.
A mão metonímia
A mão do homem
A mão do Conde
A mão sinestesia
Da bela menina
Que acaricia
A mão do amado
Embebida
de perfume amadeirado
A mão beijada
Sentia um arrepio
Os dedos dançavam
Sentindo a melodia
Do corpo
As mãos da poesia
A mão que escreve
O mão que poetize
O irmão que revitalize
O frade que verbalize
A figura latina
A mão sensação
A mão no coração
A mão do golpe
A mão da sorte
A mão amiga
A mão não vacila
A mão que oscila
As mãos na terra
O passado que se encerra
Na colheita da Mangabeira
As mãos incursão
As mãos do incauto
As mãos no alto
As mãos aplauso
Para sinalizar o fim do espetáculo
A glória do artista.



7-O navegante.
Maré alta
Maré cheia
Lua clara
Fogo e lareira
Leituras mil
O navegante mareia
O livro é a nau
Do mar
O sal
Maré alta
Maré cheia
A salina
A onda menina
A página virada
Sempre é aclamada
O novo parágrafo
Falava do passado
Exprimia o fato
Soltava a corrente
Do pensamento
Pensamento maré
Maré alta
Maré cheia
que traceja
que reverbera
que almeja
que entreolha
que revolta
que assola
Maré cheia
Noite
Maré cheia
Maré alta
Maremoto
Marítmo
no ritmo
Maré minha
Maré nossa.



8-O Presente.
O presente é um menino ferino.
Ele conversa com o passado.
Ele é o presente do ausente.
O presente pode ser usado
Para aclamar.
O presente é um espelho.
O presente tem fome de futuro.
O presente não usa óculos escuros.
É o próprio raio solar.
O presente é uma dádiva perfeita.
É uma festa .
Uma ceia.
Uma selva.
Um jantar.
Medido pela régua
Puro filosofar.
O presente é um menino ferino
de olhar felino.
O presente carrega no tempo
A própria voluptuosa ausência.
Não há sequer Ciência
Para confinar esse pensar.
O presente é uma linha reta
Uma concavidade
Lua
Cheio de curvas.
O presente não mente.
O presente sente.
O presente presenteia
Com o melhor da prateleira
Dos pensamentos História
Do passado agora.
O presente é um menino ferino.
É um grito contido
Querendo desaguar.
O presente está sempre a um segundo
Por vir
O que virá?
O presente conversa comigo.
Fala mansinho.
É o melhor amigo
O meu amor a sonhar.
O presente do presente
É sempre o último segundo
É um fruto suculento
É o inesquecível momento
de amar.



9-As portas.
As portas das salas.
As que te batem na cara.
As portas da sala de estar.
As da sala de jantar.
As portas das salas
de espera.
As portas das casas.
As portas entre a gente.
As portas de vidro
De mámore
de madeira.
As portas de pedra.
As portas das tumbas
dos faraós.
A porta do céu...
Nas portas da colmeia
O mel.



10-O meu amor.
O meu amor, vez em quando, mansinho
De manhã cedinho
Vem para os meus braços.
Quer brincar.
Quer dos meus beijos
O paladar.
O meu amor, vez em quando, quietinho
Vem se aconchegar
Chega assim querendo amar
Vem para se afogar
No mesmo suspirar.
O meu amor, vez em quando, tranqüilo
Vem enamorado
Pra gente dançar.
O meu amor é tão terno
Sempre lhe quero:
Na tarde chuvosa
Nebulosa
De frente ao espelho
Sempre é festejo certeiro.
O meu amor, quase sempre, sussurrando
Sonha comigo meus sonhos
Me faz delirar
Sempre me acalenta a alma
Quando devaneios fala
E eu que pensara
No sonho acordar.
O meu amor, sempre, me ama
No calor da chama
D'alma que canta
O nosso paladar
O meu amor tem um olhar
Que alcança meu maior desejo
O retrato do meu amor
É a felicidade sorrindo
É o fascínio de sonhar.
O meu amor é grande
Alto como os montes
É sempre uma fonte
Vertente da nascente
No meu poetizar.



11-Sobre a pestilência humana...
A pequenez aumenta
No sliêncio que aturde a alma
A maré que atormenta
A frigidez agoniza
Banaliza a dor
A cidade enfatiza
A diferença do desamor
Sobre a pestilência humana:
O problema que abocanha
O momento feliz
O sorriso do aprendiz
E qualquer sorriso maravilha
A alma sempre avalia
O significado de ser feliz
O que se come
O que se compra
O que se cospe
Como e com quem se goza?
A pestilência humana
É fato consumado
É o estômago revolto
De foie gras estragado
É o figado do ganso inchado
É consumindo que se consome
É consumido quem não produz
Mesmo na pequenez humana
Esperemos sempre o reflexo da luz.



12-Galhofa.
Que estridente!
Que verborrágico!
Que trágico!
A galhofa que lhes trago.
Que venha enternecida
Ao vulgo asno
Que a galinha
A galhofa
E a farofa
Sirvam de prato.
Que a prataria brilhe
Que o altivo enxergue nela
O sapato alto
Que efervescente!
Que estratagema!
Reverbera nesse
O nosso caso
Do acaso
Nesse caso
Que suscite o fato
Que cale o ato
Que rebele o rebelado
Que os cavalos sem sela
Partam para as guerras
Dos bem-aventurados.
Que a lua brilhe
Que a estrela brilhe
Que a gente brilhe
No mundo calado
Que o mudo fale
Com gestos impropérios.
Que o mundo arda
Que a gente saiba
O que está sendo sufocado.
Mas que esparrela
Essas mil quimeras
É sempre assim a poesia
E o poeta, pobrezinho,
coitadinho
[...é sempre o transviado.]



13-Quase epopeia.
Quisera nascer epopeia
Quisera a sorte de donzela
Quisera a vida assim
Quisera ser Dulcineia
A musa inspiradora
Multicor na copiadora
Dó, ré, mi
Do meu clarim
Quisera a palavra
Cravar n'alma
Os ais desse folhetim
Quisera a vida menina
Fazer algazarra felina
No meu tamborim
Quisera essa poesia
Cantar a alegria
O sorriso faria
Festa com meu clarinete
Quisera poetizar
Numa colcha de retalhos
Versos mil
E com um alfinete
Tecer o Aladim
Quisera a epopeia
Fazer da Medeia
Uma pedra-sabão
Quisera que meu verso
Fosse ao longe
No azul do horizonte
Onde se esconde o Serafim.



14-Ele...
O avesso dele mora em mim
Dentro dele habita o oceano
Os sete mares enfim
O avesso dele
É seu corpo que balança
Eu sou o marujo
Navegando em suas ancas
Dentro dele mora o meu mundo
Dentro dele sou feliz
O avesso dele arrepia minha pele
Parece que remexe
Revira o avesso do avesso
O meu corpo segue o conselho
De navegar o dele sem fim...



15-Amores.
O amor que bole
O amor que cure
Que amor segure
Que o porto seguro
Seja também puro.
O amor que gire
O amor que venha
O amor que queima
Igualzinho a lenha.
Amor do bule
É o vapor
É o amor do senhor
de Engenho.
O amor prenhe
Está impregnado
Do mais farto amor.
O amor da amante
O amor do amante
Amando tudo que se cante
O amor no canto
Do sabiá
Que gorjeia
O amor do sabiá
Que sabia amar.
O amor passarinho
Voa de mansinho
No braço do mar infindo.
O amor que quebra a pedra
Rola no rochedo
A água do mar.
O sal do mar
Traz à terra
O sonho de amar.



16- Girando
Girando, rodando
Roda a roda e gira
Pira
Vacila
Alucina
Roda a roda e gira
Clareia
Alumia
Passeia
Girando, rodando
Roda a roda e gira
O passado
Falado
Cantado
O susto
O assutado
Roda a roda e gira
Na saia da menina
Na ciranda pequenina
Na noite serena
Na pele morena
O luar
Cantado
Falado
Olhado
Passado
Então cantando
Girando e rodando
Roda a roda e gira.



17- Bate pé.
Bate o pé na rua
Bate o pé mulher
Bate o pé
Olha a lua
Bate o pé!
Bate o pé!
Bate o pé!
Vai descendo a ladeira
Mirando a igreja
Vai cantando menina
Sua vida
Sua lida
Sua sina
E bate o pé.



18- A viagem
Ele queria viajar
Outros mares
Outras marés
Outros lugares
Ele queria sonhar
Ver a lua brilhar
Na onda do oceano
Nos cantos dos encantos
Ele queria viajar
Nas almas da gente
Ele queria despertar.



19- Antes da última.
Antes do último gole
Antes do último trago
Antes do ultimato
Eu que vos falo
Lhes trago
O espetáculo
Eu que sou audiência
Também fiz Ciência
Da mais pura inocência
Antes do último grunhido
Antes do último suspiro
Eu que cantá-lo-ia
O suspiro
O grunido
Na mais singela melodia
Dos atrapalhados
Antes do último gozo
Antes do último coro
Toda a gente
Que mora no morro
Quer cantarolar
Antes do último gole
Antes da última cartada de sorte
Vamos sambar
Toda a gente
Quer na vitrola
O disco do Cartola
Para a alma clarificar.



20- Nossa Antologia.
Nossa poesia
É a poesia nossa
Nossa Antologia
Nossa atmosfera
O mundo em guerra
Nossa astúcia
Nossa lua
Nosso poema
Nossa essência
Nossa prosa
Nosso verso
Um jardim
Cheio de rosas
Nossa Antologia
Nossa História
Nossa gente
É toda a gente
Nossa ideologia
Nossa faca
Nossa língua latina
Nosso Ocidente
Nosso Oriente
Nossa bossa
Nossas memórias
No museu
Habita a Nossa Antologia.

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